- Tem trabalho onde?
- Angra.
- Fechou. Vou com vocês!
Pois é, viagem. A trabalho, mas viagem é sempre bom, ainda mais quando eu não montava um evento a quase um ano.
- Que horas vocês vão sair?
- Agora.
- Cedo né? São 7 da manhã.
- Pois é...aliás, o que você ta fazendo de pé essa hora?
- É uma boa pergunta. Tô tentando resolver ela desde ontem.
E de certa forma, isso poderia consertar meu horário humano e desfazer essa minha mania de hamster.
flashback 1: Segurei a porta do elevador quando o Antonio porteiro gritou meu nome daquele jeito paraiba dele:- Fala Antonio.- E aí Emilinho, tu quer um misterréin pra você?- Um o que?!- Um m-i-s-t-e-r-r-é-i-n! É que eu comprei um pra minha filha mais o bicho é chato demais, mordeu ela dia desse e só dorme! Muito ruim aquela peste.Tá certo que chegar a conclusão que eu cheguei poderia ser até um belo engano, mas em se tratando de Antonio Porteiro, era um tiro certeiro: Misterréin = Hamster.- Quero não Antonio...já tive um monte de Misterréin e é um saco mermo!Virado, de mochila pronta, subimos no que alguns chamam de "Viagrão", meu pai com muito orgulho chama de "Trovão Azul" e o resto do mundo chama de "Onibus Azul esquisito pra caralho" e pé na estrada!
Durante o percurso nada de muito interessante, a não ser uma placa enorme na estrada escrita : "GELO GELADO". Uma coisa é certa, a placa chama atenção. Só falta existir alguém que precise de gelo ( gelado! ) no meio da estrada.
Ficamos no CLUB MED. E antes de montar tudo, fomos almoçar aquela excelente comida de hotel.
É raro, mas dessa vez tinha uma "ela", de biquini roxo. Chamou a atenção e eu esperei a noite chegar...Chegamos no quiosque onde montariamos o som e no meio das almofadas que beiravam a piscina, dois motivos nos desafiaram a montar e testar o som em silêncio. 7 meses e 5 meses eram as idades dos bebês dorminhocos. Silencio forçado, esforço dobrado e ao fim da montagem, com pausa para caçar a mãe de um dos bebês que acordou, e diga-se de passagem, era argentina, fomos suados até a recepção descobrir qual seria nosso quarto.
"O CLUB MED oferece a seus sócios e visitantes 14 quadras de tênis, 2 piscinas, ginásio poliesportivo, campo de futebol, Club Med Fitness com modernos equipamentos, arco e flecha, vela, windsurf, golfe e aulas de circo . Todos os dias, inúmeras atividades de lazer são oferecidas por nosso GO’s como aulas de dança e hidroginástica. Os apartamentos, todos de tamanho semelhante e com a mesma decoração, estão espalhados entre os jardins, o lago e o coqueiral deste verdadeiro paraiso tropical."
Só esqueceram de avisar que se você for instalar-se nos apartamentos do "recanto gaivota", que fica onde Judas perdeu a unha do mindinho, você estará verdadeiramente fudido no verdadeiro paraíso tropical!
Chegamos no quarto e o Fernando descobriu uma caixinha de fósforos na mesinha de cabeceira:
- Cara, olha que sinistro! O simbolo do CLUB MED é um tridente!
- É cara, você não sabia? Isso é um clube para satanistas.
- Ahhh para..claro que não.
- É sim! Sabe o que quer dizer o "MED"?
- Não, o que?
- "
Me
Encontrei com o
Demônio."
- Cara...que sinistro!
Fui no banheiro e quando saí ele ainda estava sentado na cama olhando assustado para os fósforos.
De noite, uma banda que tocava pra ninguém, agitava o vento antes do jantar. Depois de 5 músicas eles perceberam que podiam ir embora.
- Cade a banda?
- Debandou.
nota mental1: Belo nome pra um grupo de pagode: Debandô! Com acento mesmo...nome de grupo de pagode tem que ter essas coisas, ditas "charme"...Depois do jantar, montamos o som para a apresentação da bateria da mangueira. Chamei o técnico para saber se as duas caixas de som que puzemos de retorno serviam.
- Rapaz, não se preocupe com o retorno, porque o cara do cavaquinho é chato até com Deus.
- Como assim?
- Outro dia ele veio reclamar pra mim que não estava escutando o retorno dele, que estava no máximo.
- Mas isso acontece.
- Acontece não. Ele tava de "EAR".
- Porra...
A bateria mandou ver, com cinco mulatas que desviavam o olhar do Marcio que estava filmando, ou não.
No meio do show uma das mulatas puxou um gringo pra "sambar", e dois minutos depois dele subir no palco ela deu um tchauzinho e foi pro camarim. O retardado ficou lá chutando poeira sem saber o que fazer, até que o puxador o retirou do palco com um tapinha na bunda. Hilário.
"Ela" não estava tão acessível assim, um cara travou ela na pista e desandou a falar. Depois ela me puxou pro bar:- Cara, não aguentava mais ele, ainda bem que você ta aqui.- Podes crer. - Disse eu com um sorriso pra cima. - Ele era chato?- Não...o cara até é legal, mas o papo era todo torto, e eu tenho namorado.- Podes crer. - Disse eu com um sorriso pra baixo.Rolou uma boa conversa e um "boa noite" de longe. A gente tenta amanhã...O dia seguinte começou com a preparação de uma sala de apresentação de um maquiador, e sim...era viado. A fotografa que estava sempre por lá estava me contando que o tal viado era apaixonado pelo Fernando que em um outro evento inventou de tocar o piano de cauda do hotel, e aí, no melhor estilo Casablanca, o moça deitou no piano para assisti-lo e isso rendeu uma bela foto. E uma bela estória também!
Sobrou foi tempo livre. Fomos curtir a praia e na volta o palhaço aqui inventou de imitar macaco no jardim do hotel. A galera estava filmando da varanda. Depois de uns 15 minutos de apresentação é que eu fui descobrir um velhinho em outra varanda me olhando admirado.
- Opa! e ai, beleza?
Era eu sem graça, sentado na grama sem saber o que fazer. No fim das contas desisti de espera-lo, peguei uma folha da arvore, coloquei na boca e saí apoiando as mãos no chão.
Voltei para o quarto pra descobrir que estava sem agua. Resolvi esperar...dormindo. Quando acordei, fui conferir como estavam as coisas la no salão do maquiador, e descobri que o Fernando tinha armado pra mim. O viado se pendurou no meu pescoço pedindo uma foto. Pra fechar o evento, faltava um video, algo animado para passar pras pessoas, e com isso eu fui parar no telão, imitando macaco no jardim do hotel.
Fomos jantar antes da festa de encerramento e da-lhe comida de hotel! Alguém encheu um prato de camarão dizendo que aquilo era um sonho. Três minutos depois tinha um prato de camarão de lado na mesa e o mesmo alguém dizendo que aquele camarão estava uma merda.
- Relaxa... - Disse eu batendo as cinzas do cigarro no camarão. - A gente tá no raissoçaite!
A festa rolou por pura formalidade, ninguém ficou pra dançar , a não ser nós da produção, e uma figura que parecia uma lombriga epilética. Era o maquiador. Só nos restou fazer uma rodinha em volta dele e filmar mais algumas cenas comédias para a edição. As meninas chegaram e intimamos o DJ a tocar forró.
Puxei "ela" pra dançar com aquele ar de forrozeiro nato. No fim da música voltei pro meu canto envergonhado de ter dançado com uma forrozeira nata.
Acabei a noite de dia, com ela e o maquiador num dos sofás do hotel batendo aquele papo superficial de quem quer falar logo o que quer falar, mas não fala. O maquiador partiu e eu fui deixar ela no quarto.
- Você é muito neurado.- Sou mesmo. Mas tenho meus motivos. Prefiro subjetivar tudo à falar abertamente.- Mas por que? Isso é coisa de medroso.- Pode ate ser, mas evita mal estar depois.- Nada a ver.- Então vem cá.- Não, ou sim, ou não. Não posso, sério.- Mas porque?- Por vários motivos.- Quais?- Prefiro subjetivar à falar.- Você é neurada!- Não, eu sou medrosa.- Rs...tá certo. Então boa noite!Fui para o quarto arrumei minha mochila, acordei todo mundo e partimos de lá com a chuva abrindo o dia. Voltei pra casa virado, assim como saí. Dormi a tarde inteira e passei a noite acordado. Passei pela portaria pensando no fracasso em acertar meu horario, e quando estava segurando a porta do elevador ouvi o Antonio gritar:
- Boa Noite Misterréin!!!