Taí algo que nunca fiz: Retrospectiva.
Quantos livros eu li? Quantos tentei escrever? Quantos amigos novos, situações, etc...
É claro que você, leitor (?), vai preferir saber da lista dos falecidos de 2006, dos problemas do Lula, dos fatos que "abalaram o mundo" e até mesmo de alguma estatistica absurda relacionando os tiros do Rio de Janeiro com as enchentes de São Paulo, tudo isso devidamente organizado, editado e enxugado pela incrível central globo de produções.
Já eu, que durante o ano tranquei a chave da towner 5 vezes dentro dela mesma, só posso sentar-me ao computador e procurar nos desvios mentais e na memória fútil, organizar, ou não, tudo que me aconteceu esse ano.
Prontos?
Ok, eu espero...
Me empresta o isqueiro...
Agora sim, vamos lá.
O ACONCHEGO CARIOCA as 5 horas da tarde, fervia. Katia estava fritando bolinhos e eu entornava uma garrafa inteira de heineken na mesma intensidade com que meu suor escorria.
- Katia, amanhã eu vou sair com a Manu.
- Que que tem?
- Que que tem que não estarei aqui.
- Porra Emilinho e desde quando tu me deve satisfações?!
Era bico. No final de 2005 tinha me decidido. Iria viver de arte.
Sem nem conversar com a Katia e a Rosa, donas desse querido bar ( segundo lar), vesti um avental perdido, abri uma Original, servi dois copos da mesa da varanda e debulhei meu plano.
- É o seguinte Katinha, tu me paga quanto achar que deve e eu dou uma força aqui. Enquanto isso, faço mágicas pelas mesas e vendo meu peixe. Almoço o que tiver sobrando por aí, venho de bike, e nos fins de semana eu sumo.
- Fechado.
Manu apareceu pra mim pouco antes do Reveillon e estavamos curtindo juntos o tempo em que se curte estar junto.
- Alô.
- Emilio, é a Juliana.
- Ahh tá. Falaí.
nota mental1: Juliana....juliana...?...Juliana?!- Tô com ingressos pra peça nova do Oswaldo Montenegro, vamos?
nota mental2: Oba! Peça nova do Oswaldo! Que barato, eu tenho ingressos grátis pra pegar com a Juliana que eu não sei quem é.- Claro!
- Então me liga depois e a gente combina..beijo.
Desliguei o telefone com algo que parecia ser o sorriso pra baixo...e seria, se eu já tivesse conhecido Mariana Rios.
- Quem era? - Perguntou Manu do banco do carona.
- Alguma Juliana... - Respondi enquanto guardava o celular, acendia um cigarro, e controlava o "leve" volante da Towner.
- Tua ex?
- Manu, você é uma genia!
Eu e Manu não estavamos namorando, mesmo assim me senti na obrigação de aproveitar o tempo em que prendi a chave dentro da towner, para explicar por A + B que não existiriam problemas em ver a peça do Oswaldo com a minha ex.
- Tudo bem.
O problema estava em ver a peça do Oswaldo, mas nenhum de nós sabiamos disso.
" Bom gente, antes da peça começar gostariamos de dizer que a Oswaldo Montenegro produções e a companhia de teatro "aqui entre nós", abrirão testes para musicos, atores, dançarinos e cantores para futuros espetáculos...(...)...e com vocês, "tipos", divirtam-se!"A peça era genial. Nada mais era do que tipos, assim como o título adiantava. A histerica, o ciumento, o sonhador, o bebado, o religioso, a lesbica, etc...
Mas a peça maior era a que minha mente pregava em mim enquanto assistia aquela galera no palco.
"testes...lá vou eu."Saí do teatro decidido a fazer o tal teste. Ahh...e como havia dito antes, nada rolou entre eu e minha ex.
- KATIA, AMANHÃ NÃO VENHO PRA CÁ...
tire uma carta por favor...TEM PROBLEMA?
- VAI À MERDA EMILINHO!
- NÃO...
ok, agora embaralhe e não deixe eu ver...VOU FAZER UM TESTE PRA PEÇA DO OSWALDO MONTENEGRO.
- QUE CHIQUE...
- POIS É...
ok, sua carta era um 10 de espadas...VAI SER BACANA...- SÓ NÃO ENTENDI UMA COISA...
- O QUE?
- VOCÊ É ATOR?!
"Você é ator?". Eu estava diante da Valeska, que mais tarde viraria uma grande parceira de chopp e me colocaria o apelido de "cachorro". Ela cuidava das fichas de seleção.
- Ô garoto, acorda, você é ator?
- Ah...não.
- Dança?
- Não.
- Que que você faz?!
- Nada.
Mais tarde a Valeska me confessou que nesse exato momento ela pensou seriamente em me mandar tomar no cú e mais uma série de situações desagradáveisem que eu seria o protagonista.
Ela só respirou fundo.
- Você não faz nada...é isso?
- Na verdade, eu canto, toco violão tão bem quanto um cego maneta, Gaita, sax e faço mágica.
- Você é mágico?
nota mental3: Você é advogado? sim. / Você é médico? Sim. / Você é mágico? Sim. / Mágico?! Sim. / Você é mágico?!?!? Sim. - Eu ainda me pergunto por que o mágico precisa sempre dar aval na afirmação do próprio sim!- Sim.
Ok. Aguarda lá dentro.
Oswaldo entrou no teatro, onde os testes eram realizados, com a cigarrilha e a coca-light. Parou na frente de todos, falou sobre o projeto e puxou minha ficha.
- Você toca Sax?
- Sim.
- Profissionalmente?
- Não.
- Gaita?
- Sim.
- Profissionalmente?
- Não.
- Canta?
- Sim.
- Aqui na ficha diz que você tem uma banda, eu espero que ela exista.
- Existe sim.
- Ok velho, canta aí.
- Pode ser música minha?
- Não.
20 minutos depois.
- Toca qualquer coisa vai...pode ser uma música sua.
- "
O cachorro, me botou na coleira, me levou pra passear, pela rua inteira..."- Valeska...anota o número desse louco.
Enquanto a Valeska anotava o número, eu ria de alegria e ela ria do cachorro.
- Como é seu nome mesmo ô cachorro.
- Emilio.
- Emilio nada, agora tu é o cachorro.
------------------------------------------------
Estavamos na casa do Tobé quando o Fabrizio do SOM DA RUA me ligou.
- Fala Emilio, tá afim de participar do tributo ao Liô, la no humaitá pra peixe.
- Claro cara!
Liô era o vocalista. Ele faleceu num acidente de carro, novo ainda, e deixou a banda perdida. Daí alguém resolveu fazer o tributo, e foi uma festa "du caaaraaaalhouuuu!" como o próprio Liô diria.
Eu ia cantar uma música.
Na verdade era só um refrão.
Era a segunda voz do refrão.
- E o que eu canto?
- Isso aqui ó
" eu não tenho nada a lhe dizer..."Quem me explicava era o Tiago Pedalino, vocalista do Ramirez.
- E se a gente dividisse as partes principais?
- Pode ser. Você alcança os falsetes de "boas novas".
- Sim.
- Boa, então tu vai cantar ela também.
- Então rola de cantar aquela outra parte também?
Resumindo, Acabei participando de todo o set. E foi "du caraaaaalhoooouuuu". Toda a emoção da galera, ou gritos, as palmas e uma serenidade em saber que não existia palco naquele show .
Na verdade existia um palco e um só cara em cima dele, mas esse era muito alto.
Conheci o Rodrigo Neto nos ensaios. Trocamos várias idéias sobre bandas, sobre Raul e senti nele uma simplicidade e um respeito gratuito até mesmo enquanto brincavamos. Ele cantaria na segunda parte da Jam.
- Emilio, me recuso a cantar depois de tu.
- Que isso cara.
Fiquei feliz e vermelho ao mesmo tempo, não sei ganhar elogios. Mas o que me fez bem mesmo foi ver que a tal panela da música, não existia, ou se existia, eu tava dentro.
Saimos do estúdio para fumar um cigarro. Eu e Fabrízio.
- Coé emilio, se rolar testes para novo vocalista, tu mandaria material?
Não respondi. Na verdade não saberia responder. E ao invés de procurar uma resposta, o que achei foram milhões de perguntas...eu tava euforico. Eu tava feliz. Eu tava perdidaço.
---------------------------------------------------
Quando eu era pequeno queria voar. Mas isso não era resposta pra um " o que você quer ser quando crescer?". Então decidi que queria ser piloto de avião. E desenhava aviões, uniformes até que descobri que os astronautas podiam ir muito além. Criei naves com caixinhas de remédio, amarrava meus bonecos em barbantes para lança-los pela "orbita" da minha janela e cantava o fundo musical da odisséia. Até que um dia eu descobri que o tempo todo eu estava voando muito mais alto que qualquer piloto, muito além dos astronautas e que aquele minimo de loucura era a minha máxima vocação.
Era a Arte.
Um dia encontrei loucos como eu. Vários. E me juntei aos "cisnes" para barulhar uma varanda na frente do shopping iguatemi. O som era precário, as músicas eram toscas, mas as gargalhadas que surgiam entre nós eram no mínimo um convite a andar um pouco mais. Eu tinha 15 anos.
Estreamos no palco do extinto "black night" e enquanto as bandas procuravam tirar solos perfeitos de Gun's n' Roses nós nos divertiamos intercalando Reginaldo Rossi com Rage Against the machine. O prazer de estar junto começou a dar cria, e logo vimos que "meu piru é de vidro" não era um refrão que fariam as meninas nos quererem. Começamos a compor, mais maduros. E entre idas e vindas a coisa foi andando e virando um monstrinho. 8 anos se passaram e tivemos que concordar que aquilo era um casamento. A "mulher do padre" virou "patuve!" e dentro do possivel, tambem virou prioridade na vida da gente.
E lá estava eu, exagerado, dando mais prioridade do que eu mesmo era capaz de dar. Estava angustiado e com pressa...não tinha mais tempo de virar piloto, muito menos astronauta, eu precisava voar. Era hora do divorcio.
Conversei com todos e achamos que a melhor coisa a se fazer era terminar a banda, e na verdade penso ate hoje se foi isso mesmo que aconteceu.
Desde o início nosso grande sucesso foram as risadas, a alegria em estar junto e brincar. Acontece que crescemos, e mesmo chorando eu pude ver que aqueles loucos que bateram nas minhas costas e com muito amor disseram "vai lá!", eram meus irmãos.
Ganhei.
-------------------------------------------------
- Faz de novo. rs...
- O que?
- Essa boca pra baixo aí...
- Como? ...assim?
- huauhauhauahuhauauhauahuah.
A boca pra baixo era da figuraça, linda, gostosa e mineira, Mariana Rios. Junto com ela vieram
Monica, Kaisa, Tais, Paty, Rodrigo, Elvecio, Marquinhos, Hudson, Cris, Munique, Diogo, Nando Malabares, Caio, Madá, Camila, Valeska e o Oswaldo.
Eu tava na peça.
As leituras começaram na casa do Oswaldo numa pontualidade britanica. Eu cheguei numa "atrasualidade" ironica. Quer adivinhar?
Isso aí, a chave da towner.
Os intervalos serviam para nos conhecermos melhor. Fumantes na varanda.
- Pois é, lá na globo...
nota mental 4: Que que essa garota tá falando de globo? Como é mesmo o nome dela?- Desculpa, não prestei atenção...que que você fez na globo?
- Eu fiz aquela novela, América.
- Ahhhh tá.
nota mental 5: Tadinha, deve ter feito ponta e ta tirando essa banca agora...
No carro eu atualizava a Manu com as fofocas dos ensaios.
- Ai a tal de Camila disse que fez América.
- Quem? Camila Rodrigues?
- Acho que é ... ela fez ponta.
- Que ponta o que Emilio, ela era irmã da Sol..tu não lembra?
- Que que é Sol?!
Descobri que precisava ver mais novelas. Descobri tambem que precisava de uns toques para atuar, estava completamente perdido e logo toda a soberba que eu tinha visto na "irmã da Sol" se dissipou. Depois de um papo quase discussão a gente encontrou o ritmo certo e tudo começou a andar.
Logo vieram os planos de viagens, as estórias de bastidores, a falta de tempo e o resultado sobre o novo vocalista do SOM DA RUA.
Era eu.
Eu teria que me transformar em cinco a partir dali, mas o difícil foi escolher qual de mim iria conversar sério com a Manu.
----------------------------------------------------------------------
Uma vez escutei de alguém que era incrivel como um cara que fala tanto consegue se esconder tanto em igual proporção.
Pois é.
---------------------------------------------------------------------
Estreamos a peça no Clara Nunes. E foi lindo. Mas o barato mermo eram os esporros, os ensaios e as cenas hilárias que ninguém esquece.
Oswaldo:
- Nando, quando for tocar a zabumba, toca mais baixo.
- Ok.
ele tocou mais alto.
- Nando..é mais baixo.
aumentou.
- nando, MAIS BAIXO!
Eu olhava pro Nando e mordendo o beiço ele agora sentava o braço na zabumba.
- PORRA NANDO, MAIS BAIXO!
PÁÁÁÁÁÁ.....PÁÁÁÁÁÁÁ.
Oswaldo pulou pra cima do palco e gritou na cara do Nando:
- CARALHO, TU É SURDO?!?! MAIS BAIXO!!! MAIS BAIXO!!!!
Nando secou a testa e respondeu:
- Desculpa, eu entendi
MAIS MACHO.Do Clara Nunes partimos pro municipal de niterói e de lá a dúvida sobre o canecão.
- Emilio...
- Fala Oswaldo...
- Tu sabe que se for rolar o canecão eu vou fazer o seu papel né?
- Tô sabendo - graças a Mariana agora eu sorrizava pra baixo.
- Tu sabe tambem que minha mãe te adorou né?
- Não sabia não.
- Pois é, tava conversando com ela e a Paloma, e as duas acham que você deve fazer o canecão.
- E isso muda alguma coisa?
- Bom, eram as duas coisas que eu queria te contar. A primeira é que se rolar o canecão, você vai fazer o papel.
- Sério?! E a outra?
- Semana que vem a gente começa os ensaios pro canecão.
-----------------------------------------------------------------
O ritmo agora era mais frenético do que eu pensava...eu dividia o tempo entre ensaios da peça e os ensaios com o som da rua. canecão e teatro odisseia. E nos tempos livres eu ria de me acabar quase sempre na lapa.
Não falar da lapa seria um crime. Conheci milhões de pessoas lá e passei bons momentos com vários amigos. Quando não era dançando um samba com a Mariana irmã do tobé, era discutindo a posição macho-feminista com o próprio. No fim das contas estavamos sempre no arco-iris fazendo o balanço da noite, ou curtindo algum programa de penetra que as "fontes secretas" arrumavam para nós.
O papo...obviamente acabava em sacanagem, mas em momentos filosoficos e construtivos que geram boa parte do material do que parada, o assunto mesmo era a guerra dos sexos, ou melhor...a mulher. E pra falar de mulher é preciso respirar.
Ok, vá lavar o rosto.
Pega esse cinzeiro aí pra mim...
Quando eu puder prosseguir me avisem!
Hoje abri meu orkut e lá estava a sorte do dia, coisa que só fui perceber através dos posts do Tobé.
"generosidade e perfeição são seus eternos objetivos".
Brilhante né? não.
Nunca tive tendencia à monge, generosidade é consequencia e não objetivo, e, perfeição ( ?! ) faça-me o favor.
Se a grande solução da vida fosse escutar e seguir o que o orkut ensina, Deus não perderia tempo colocando as verdades da vida num ser de carne e osso lançado no mundo com a grife "mulher".
Nesse ano aprendi muito com as mulheres. Através de beijos, de surpesas, de relações, amizades e até mesmo por relatos do blog "homem é tudo palhaço" que fica aí do lado nos nossos links.
Me apaixonei algumas vezes, em outras torci para o tempo passar rápido, mas no final a grande verdade é que essa mesma grande verdade, é delas.
E todo aquele medo de namorar outra vez desapareceu, afinal, por mais louco que isso possa parecer, eu namorei o ano inteiro sem compromissos.
Cortei o cabelo, fui ao cinema, teatro, comprei roupas, tive problemas, escrevi, compus e tudo que parecia depender apenas de mim, só aconteceu por que alguma mulher estava comigo e disse "sim". Ok, estou divagando muito, mas quem é que entende a mulher? é mais fácil aceitar.
Você já foi deitar e sem querer prestou atenção no seu coração batendo? E passou alguns minutos angustiantes preso aquela batida tentando entender o por que aquele simples som te mantem vivo? No fim das contas a gente liga a TV, aceita o fato e agradece. Isso é a mulher.
-Estou vivendo o momento mágico das mentiras que as mulheres criam para nos fazer feliz.
- Eu entendo isso Emilio, mas falaí, tirando essa poesia barata.
- Tobé, eu liguei pra ela na semana passada e fiquei meia-hora tentando achar uma brecha para convida-la para algum programa maneiro, afinal eu não queria ligar e dizer "opa, e aí, vamos tomar um chopp?".
- E aí?
- Ai que ficamos conversando e ela perguntou se eu tava afim de tomar um chopp essa semana.
- Isso seria quando?
- Ontem, mas ela não pode ir.
- Se fudeu.
- Não po, peralá, a gente remarcou pra hoje.
...
- E aí, como foi o chopp?
- Não rolou.
- Se fudeu.
- Nada, ela tinha trabalho de faculdade e ai ficou pra semana que vem.
- Eu ficaria frustrado.
- Ficaria nada Tobé, você tambem é homem cara. Já notou como a mulher muda toda a verdade com uma simplicidade assustadora?
- Já, e no fim das contas a gente acredita.
- Pois é, é como quando você é criança e o Otavinho da 4º série acaba com sua alegria dizendo que papai noel não existe. Ele te explica através da quimica da fisica e da matematica que é impossivel um velho gordo e muito provavelmente senil, conseguir guardar endereços, presentes e ainda visitar todas as casas do mundo numa única noite.
- E daí?
- Daí, você chega em casa chorando e conta tudo isso pra sua mãe, e ela abaixa, olha no teu olho e diz "calma, ele existe sim.". Você abre um sorrizão e atraves de um "calma , existe sim." que não prova porra nenhuma, voce não só volta a acreditar no Velho, como escreve cartas até os 30 anos.
- É cara...as mulheres são um mistério.
...
- Emilio, você jura que não esta puto por ela ter um passeio cultural na floresta da tijuca com um grupo de crianças cegas de Marrocos exatamente no horário do chopp???
- Tô não cara, ela remarcou nosso chopp pro dia 24 de dezembro.
Resumindo:
Com algumas mulheres aprendi que ser legal pode ser apenas ser legal;
Com outras aprendi que é preciso ter calma;
Algumas me mostraram que o kamasutra é simplesmente um livrinho de posto de saúde;
Com minha irmã aprendi que Mc Leozinho pode ser divertido;
Com minha irmã mais nova aprendi que arrancar um sorriso não é tarefa, é presente;
Com minha avó aprendi que as mulheres veem coisas que nós não vemos;
Com minha mãe continuo aprendendo que o amor é algo incondicional.
---------------------------------------------------------------------------
- E aí, alguém já me odeia?
- Cara, pelo visto ainda não, mas vai acontecer.
- Tomara.
A peça rolou no canecão e com isso terminamos a temporada de "aldeia dos ventos". Oswaldo me ensinava que o sucesso só vem depois do ódio de alguém. E eu aguardava anciosamente algum fã do som da rua que cuspiria na minha cara.
O show de volta rolou no odisséia e no fim de tudo eu comecei a enxergar meus novos presentes:
Fabrizio ( que dentre todos, assumiu o posto de fiel escudeiro), João Rodrigo ( O cara que de um jeito odiavelmente amavel verbalizava até mesmo sobre como tirar o papel de um chiclete), Renato ( tão distante, porém naturalmente querido) e Diogão ( se é que isso é possivel, uma espécie de Emilio, só que calado e quieto).
Lembrei de como tudo se desenrolou. Depois de uma viagem para Araras, na casa da Mirela, João quis conversar comigo.
- Cara, depois dessa viagem a gente chegou a algumas conclusões...
- Pode falar.
- Como você é o novo vocalista do som da rua, a gente vai viajar muito juntos.
- Aham.
- E quando viajarmos, talvez todos estejam muito cansados após os shows.
- Ok.
- Então é provavel que você não possa dormir as 10 da manhã como foi lá em araras.
- Sem problemas.
- E algumas pessoas podem não querer ver sua imitação de macaco no meio da madrugada.
- Entendo.
- E a gente pode acabar brigando caso voce bata nas portas dos quartos berrando "quer dormir, dorme no Rio.".
- justo.
- E o teclado do Fabrizio vai estar por perto sempre, porém eu acredito muito que ninguem vai curtir se você ligar aquela coisa no amplificador e começar uma Rave as 5 da manhã.
- Já entendi.
- É bom ter você com a gente.
- Obrigado.
É óbvio que fiquei assustado, mas na primeira oportunidade de viagem, me acalmei depois que o João teve um ataque histérico por causa de uma barata no meio da noite.
O tal "quer dormir, dorme no Rio" era algo comum nas minhas viagens, mas é claro que isso só era aceito na casa de Maricá...
---------------------------------------------------------------
- Ih rapaz! Esqueci o Ninho dentro do carro!
Ninho era um poodle highlander do João Paulo. Quem berrava era Paulo Campos, pai do João, que as quatro da tarde lembrou que o cachorro imortal estava atras do banco do carro torrado de sol desde onze da manhã.
Torrado estava o carro. Ninho saltou pra fora, impulsionado pela perna boa, e como se nada tivesse acontecido, foi pra perto da churrasqueira atrves do olfato, até porque ele era cego.
Daí ele latiria por um pedaço de carne preparada por Gustavo Malavota, mas isso só aconteceria se Ninho ainda conseguisse latir.
Perdi a conta de quantas vezes fomos para Maricá, quantas fogueiras foram acessas, quantas caixas de cerveja, quantas estórias da época de escola mais do que manjadas e quantas vezes eu tive que tocar "baba baby" imitando o Daniel, Paulo Ricardo, Tiririca e Ed Motta.
Quando digo que vou viajar com a galera do colégio Martins o povo quase não acredita que ainda seja possivel juntar todo mundo tantas vezes no ano. Quase.
Não acreditam mesmo é quando digo que esses encontros não são forçados por algum motivo em especial.
Talvez o que haja de especial seja apenas nós mesmos.
- Como tá o teu irmão?
- Que irmão?
- O Pedro.
- ta bem cara, ele agora ta em São Paulo, trabalhando.
- Me amarro nele...sabe como conheci o Pedro?
- Não, conta aí.
- O Pedro...bom...o Pedro éééé...irmão de um grande amigo meu...
- Rodrigo...
- Que foi?
- O Pedro é meu irmão.
- Ahh é, então...
Aí o Paulo passa pela piscina as 9 da manhã. Eu e Rodrigo ainda estavamos acordados. Rodrigo estava afundando na água e esticando o corpo, eu só observava.
- Falaí Emilio, eu era um objeto, adivinha aí.
- Sei lá muleque, tu só se esticou.
- Era uma régua!!!
- Puta merda...PAULO, CHEGAÍ, ADIVINHA O QUE O RODRIGO TA FAZENDO!!!
Rodrigo se esticou de novo embaixo d'agua e quando voltou, secou o rosto com um sorriso pronto.
Paulo, que nem se mexeu na borda da piscina, respondeu.
- Fácil...uma régua.
Preciso dizer onde vou passar o Reveillon?
-------------------------------------------------------------
- Emilio, leia isso aqui.
Eram comentários sobre o show da volta do som da rua. Alguém me odiou. Alguéns.
- Agora sim!
Descobri uma nova forma de compor. Ora ajudado pelo Liô, que dizia que o legal era transformar tudo em belas canções, mesmo as coisas mais detestaveis; ora pelos caras do Zecacurydamm, que me mostraram o que eram belas canções.
- Escuta isso.
" La la, lin lin lin , lon lon lon lon..."Estavamos subindo a serra para um fim de semana na casa do Heribertão, pai do Tobé. Eu estava de carona por dois motivos.
1 - A Towner não aguentaria subir a serra.
2 - Eu precisava tirar a chave de dentro dela.
- O que é isso?
- Zecacurydamm.
- Que porra de nome é esse?
- É o nome da banda, que na verdade são os nomes dos caras: Zeca, Cury e o Damm.
- Rs...maneiro.
No domingo Tobé estava procurando por um objeto pesado e mortal, caso eu voltasse a cantar "la la lin lin lin lon lon lon lon" de novo.
- Os caras estão vindo pro Rio.
- Que foda...quando?
- No aniversário do Daniel. Sabe quem mais vai tocar?
- Quem?
- Patuve!
Foi uma festa no minimo alucinogena. Eu estava com saudade daquela zona. Subimos no palco sem ensaiar e mesmo com minha gaita fora do tom, mesmo com o Fa-fabio cantando, mesmo com o André invadindo o palco pelado para cantar "normal", ainda sim, foi um showzaço regado a guerra de bolo e Rock'n roll.
----------------------------------------------------------------------
Mas era isso, alguem me odiava e eu tinha o novo desafio de transformar isso em uma bela canção.
E assim, o medo da falta de composições para o som da rua, virou uma enxurrada de idéias e novos formatos.
Minha casa virou o QG das idéias, e quase sempre tinha alguém batendo na porta para compor e beber o miraculoso café com cachaça que abria a mente.
E com alguns covers cantados com o meu ingles "impecavel", novas composições, problemas resolvidos e uma penca de shows, começamos a traçar os planos de viagens.
--------------------------------------------------------------------------
Um pouco antes disso tudo, surgia na minha cabeça a idéia dos diários "normais" aqui no blog. E se eu continuasse contando aqui essa retrospectiva, estaria repetindo muita coisa. E cá pra nós...se você leu tudo isso até aqui, é sinal de que você é nerd o suficiente para ler o resto do blog.
Eu e Tobé agradecemos.
Por fim, gostaria apenas de falar sobre dois caras que como sempre foram meus pilares durante o ano.
Um é gordinho.
O outro também.
Um é santo por morar apenas com mulheres.
O outro também.
Um é meu irmão.
O outro também.
Tobé foi e é o grande irmão dessa vida.
- sabe o que me irrita.
- fala Tobé.
- Essa tua mania de achar que tudo é normal.
- Normal.
- O que é é normal? As pessoas se fodem, passam por problemas e tudo que voce sabe dizer é que é normal...as vezes "normal" não é a palavra certa pra se dizer pra alguem.
- Normal.
- O que é normal?
- Você pensar isso.
- Muleque, mas isso me irrita.
- Claro, se voce não gosta, naturalmente que voce vai ficar irritado, mas pra mim isso é normal.
- Mas e se a gente cair na porrada um dia por causa disso?
- Normal.
No fim das contas eu continuo achando tudo normal, até mesmo o fato de não saber o que fazer, sem antes falar com esse pessimista querido.
Pedro é o cara. É o meu heroi. Essa coisa gorda que saiu da mesma barriga que eu, que fala rápido pra caralho e tem o dom de me irritar.
Mas ai eu paro pra escrever uma retrospectiva e vejo que o gordinho tava lá, em cada situação acima, ele tava lá. E ai eu me pego vendo o sorriso dele enquanto le o blog e fico rindo sozinho enquanto penso "Le devagar porra..."
Não tem jeito, eu amo esse muleque na mesma intensidade com que ele mistura as palavras.
----------------------------------------------------------------------------
E agora sim, 2006. O fim de um ano que virou minha vida de cabeça pra baixo. E parafraseando alguém do orkut:
Que 2007 seja melhor que 2006 e pior que 2008.
Beijos e inté!
OBS: A towner de Emilio Dantas sofreu um derrame e falencia multipla dos orgãos em meados de outubro. Seu pai decretou, enfim, a morte da towner. Pessoas do mundo inteiro, comovidas, prestaram homenagens e fizeram campanhas por sua volta. O pedido foi atendido e no final de Novembro a towner estava de novo pronta para voltar as ruas.
Mas antes Emilio teve que arrumar um jeito de tirar a chave de dentro dela.