27 Dezembro 2006

O QUE VOCÊ VAI SER QUANDO CRESCER?


Onde Papai Noel passa o reveillon? Será que depois que o natal acaba o velho pançudo tira a barba branca e passeia pelas areias de Copacabana assediando belas mulatas com uma caixa de viagra no bolso?

Nessas horas em que me vejo completamente entediado por filmes natalinos que me levam a pensar em como seria o “bom velhinho” desfrutando do melhor do turismo sexual brasileiro, eu percebo o peso do número de reveillons sobre meus ombros.

Sou um saudosista por natureza. Algumas vezes até entro naquele clima piegas de “ah que saudade da minha infância” mesmo estando satisfeito com maturidade dos meus vinte e muitos anos. Já passei das fases de adorar o natal e acreditar no Papai Noel, de achar que o natal é um produto da coca-cola company e atualmente to no clima “Feliz Natal, vamos beber porque é feriado”.

Esse ano foi o primeiro ano da minha vida em que não houve árvore de natal na minha casa e nem mesa decorada com aquele monte de frutas que tem um gosto ruim pra caralho. Com o passar dos anos, a presença da família foi sendo substituída pela presença dos amigos, alias os amigos foram se transformando na família.

E assim o Natal passou diferente dos outros anos em uma transição sutil que só chamou atenção quando parei para fazer a minha retrospectiva depois de ler a do meu parceiro de blog. Pausa para agradecer a esse membro da minha família que com a sua normalidade anormal, ajudou a deixar azul marinho um momento muito negro do ano que se encerra. Na minha retrospectiva pensei na vida, comparei os anos, formulei perguntas, respondi algumas que nem mereciam ser ponderadas, mas não vale entrar em detalhes pra evitar um clima de “Diário da Princesa”.

A questão é que durante muito tempo variantes da velha “O que você vai ser quando crescer?” permaneciam entre as perguntas sem resposta das minhas comemorações de fim de ano. Esse ano não poderia ser diferente, e a variante da vez é:


Quando você sabe que cresceu?


O que faz você se sentir um adulto? Filhos? Independência financeira? Ter mais de 21 anos? Cagar lendo o jornal?

Conheço alguns chefes de família emocionalmente mais instáveis do que eu e alguns até financeiramente mais prejudicados, mas mesmo assim tirando o fato de ter carteira de habilitação, vida sexual ativa e não acreditar em papai noel, não me sinto tão adulto. Tenho os mesmo amigos, moro com as mesmas pessoas, trabalho da mesma maneira (um pouco menos ganhando um pouco mais) e a preocupação com futuro é uma constante que eu achei que não faria mais parte da minha vida a esta altura, mas ainda está aqui.

Na verdade quando era mais novo, achei que quando chegasse a minha idade atual, estaria casado, com filhos indo aos domingos no zoológico para dar pipoca aos macacos e no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar.

Felizmente a vida é mais do que isso, e apesar de alguns planos ainda não realizados e do receio de não concretiza-los, os altos ainda são mais presentes do que os baixos, e os ponteiros do relógio continuam em movimento, me preparando para dar adeus a crise dos vinte e poucos anos e abraçar a crise dos trinta e poucos, porque talvez crescer realmente não seja coisa de criança.


Feliz Ano Novo.

26 Dezembro 2006

E NO PRINCÍPIO ERA...

Taí algo que nunca fiz: Retrospectiva.
Quantos livros eu li? Quantos tentei escrever? Quantos amigos novos, situações, etc...
É claro que você, leitor (?), vai preferir saber da lista dos falecidos de 2006, dos problemas do Lula, dos fatos que "abalaram o mundo" e até mesmo de alguma estatistica absurda relacionando os tiros do Rio de Janeiro com as enchentes de São Paulo, tudo isso devidamente organizado, editado e enxugado pela incrível central globo de produções.

Já eu, que durante o ano tranquei a chave da towner 5 vezes dentro dela mesma, só posso sentar-me ao computador e procurar nos desvios mentais e na memória fútil, organizar, ou não, tudo que me aconteceu esse ano.

Prontos?

Ok, eu espero...

Me empresta o isqueiro...

Agora sim, vamos lá.


O ACONCHEGO CARIOCA as 5 horas da tarde, fervia. Katia estava fritando bolinhos e eu entornava uma garrafa inteira de heineken na mesma intensidade com que meu suor escorria.

- Katia, amanhã eu vou sair com a Manu.

- Que que tem?

- Que que tem que não estarei aqui.

- Porra Emilinho e desde quando tu me deve satisfações?!

Era bico. No final de 2005 tinha me decidido. Iria viver de arte.
Sem nem conversar com a Katia e a Rosa, donas desse querido bar ( segundo lar), vesti um avental perdido, abri uma Original, servi dois copos da mesa da varanda e debulhei meu plano.

- É o seguinte Katinha, tu me paga quanto achar que deve e eu dou uma força aqui. Enquanto isso, faço mágicas pelas mesas e vendo meu peixe. Almoço o que tiver sobrando por aí, venho de bike, e nos fins de semana eu sumo.

- Fechado.

Manu apareceu pra mim pouco antes do Reveillon e estavamos curtindo juntos o tempo em que se curte estar junto.

- Alô.

- Emilio, é a Juliana.

- Ahh tá. Falaí.

nota mental1: Juliana....juliana...?...Juliana?!

- Tô com ingressos pra peça nova do Oswaldo Montenegro, vamos?

nota mental2: Oba! Peça nova do Oswaldo! Que barato, eu tenho ingressos grátis pra pegar com a Juliana que eu não sei quem é.

- Claro!

- Então me liga depois e a gente combina..beijo.

Desliguei o telefone com algo que parecia ser o sorriso pra baixo...e seria, se eu já tivesse conhecido Mariana Rios.

- Quem era? - Perguntou Manu do banco do carona.

- Alguma Juliana... - Respondi enquanto guardava o celular, acendia um cigarro, e controlava o "leve" volante da Towner.

- Tua ex?

- Manu, você é uma genia!

Eu e Manu não estavamos namorando, mesmo assim me senti na obrigação de aproveitar o tempo em que prendi a chave dentro da towner, para explicar por A + B que não existiriam problemas em ver a peça do Oswaldo com a minha ex.

- Tudo bem.

O problema estava em ver a peça do Oswaldo, mas nenhum de nós sabiamos disso.

" Bom gente, antes da peça começar gostariamos de dizer que a Oswaldo Montenegro produções e a companhia de teatro "aqui entre nós", abrirão testes para musicos, atores, dançarinos e cantores para futuros espetáculos...(...)...e com vocês, "tipos", divirtam-se!"

A peça era genial. Nada mais era do que tipos, assim como o título adiantava. A histerica, o ciumento, o sonhador, o bebado, o religioso, a lesbica, etc...
Mas a peça maior era a que minha mente pregava em mim enquanto assistia aquela galera no palco. "testes...lá vou eu."
Saí do teatro decidido a fazer o tal teste. Ahh...e como havia dito antes, nada rolou entre eu e minha ex.

- KATIA, AMANHÃ NÃO VENHO PRA CÁ...tire uma carta por favor...TEM PROBLEMA?

- VAI À MERDA EMILINHO!

- NÃO...ok, agora embaralhe e não deixe eu ver...VOU FAZER UM TESTE PRA PEÇA DO OSWALDO MONTENEGRO.

- QUE CHIQUE...

- POIS É...ok, sua carta era um 10 de espadas...VAI SER BACANA...

- SÓ NÃO ENTENDI UMA COISA...

- O QUE?

- VOCÊ É ATOR?!

"Você é ator?". Eu estava diante da Valeska, que mais tarde viraria uma grande parceira de chopp e me colocaria o apelido de "cachorro". Ela cuidava das fichas de seleção.

- Ô garoto, acorda, você é ator?

- Ah...não.

- Dança?

- Não.

- Que que você faz?!

- Nada.

Mais tarde a Valeska me confessou que nesse exato momento ela pensou seriamente em me mandar tomar no cú e mais uma série de situações desagradáveisem que eu seria o protagonista.
Ela só respirou fundo.

- Você não faz nada...é isso?

- Na verdade, eu canto, toco violão tão bem quanto um cego maneta, Gaita, sax e faço mágica.

- Você é mágico?

nota mental3: Você é advogado? sim. / Você é médico? Sim. / Você é mágico? Sim. / Mágico?! Sim. / Você é mágico?!?!? Sim. - Eu ainda me pergunto por que o mágico precisa sempre dar aval na afirmação do próprio sim!

- Sim.

Ok. Aguarda lá dentro.

Oswaldo entrou no teatro, onde os testes eram realizados, com a cigarrilha e a coca-light. Parou na frente de todos, falou sobre o projeto e puxou minha ficha.

- Você toca Sax?

- Sim.

- Profissionalmente?

- Não.

- Gaita?

- Sim.

- Profissionalmente?

- Não.

- Canta?

- Sim.

- Aqui na ficha diz que você tem uma banda, eu espero que ela exista.

- Existe sim.

- Ok velho, canta aí.

- Pode ser música minha?

- Não.

20 minutos depois.

- Toca qualquer coisa vai...pode ser uma música sua.

- " O cachorro, me botou na coleira, me levou pra passear, pela rua inteira..."

- Valeska...anota o número desse louco.

Enquanto a Valeska anotava o número, eu ria de alegria e ela ria do cachorro.

- Como é seu nome mesmo ô cachorro.

- Emilio.

- Emilio nada, agora tu é o cachorro.

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Estavamos na casa do Tobé quando o Fabrizio do SOM DA RUA me ligou.

- Fala Emilio, tá afim de participar do tributo ao Liô, la no humaitá pra peixe.

- Claro cara!

Liô era o vocalista. Ele faleceu num acidente de carro, novo ainda, e deixou a banda perdida. Daí alguém resolveu fazer o tributo, e foi uma festa "du caaaraaaalhouuuu!" como o próprio Liô diria.
Eu ia cantar uma música.
Na verdade era só um refrão.
Era a segunda voz do refrão.

- E o que eu canto?

- Isso aqui ó " eu não tenho nada a lhe dizer..."

Quem me explicava era o Tiago Pedalino, vocalista do Ramirez.

- E se a gente dividisse as partes principais?

- Pode ser. Você alcança os falsetes de "boas novas".

- Sim.

- Boa, então tu vai cantar ela também.

- Então rola de cantar aquela outra parte também?

Resumindo, Acabei participando de todo o set. E foi "du caraaaaalhoooouuuu". Toda a emoção da galera, ou gritos, as palmas e uma serenidade em saber que não existia palco naquele show .

Na verdade existia um palco e um só cara em cima dele, mas esse era muito alto.

Conheci o Rodrigo Neto nos ensaios. Trocamos várias idéias sobre bandas, sobre Raul e senti nele uma simplicidade e um respeito gratuito até mesmo enquanto brincavamos. Ele cantaria na segunda parte da Jam.

- Emilio, me recuso a cantar depois de tu.

- Que isso cara.

Fiquei feliz e vermelho ao mesmo tempo, não sei ganhar elogios. Mas o que me fez bem mesmo foi ver que a tal panela da música, não existia, ou se existia, eu tava dentro.

Saimos do estúdio para fumar um cigarro. Eu e Fabrízio.

- Coé emilio, se rolar testes para novo vocalista, tu mandaria material?

Não respondi. Na verdade não saberia responder. E ao invés de procurar uma resposta, o que achei foram milhões de perguntas...eu tava euforico. Eu tava feliz. Eu tava perdidaço.

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Quando eu era pequeno queria voar. Mas isso não era resposta pra um " o que você quer ser quando crescer?". Então decidi que queria ser piloto de avião. E desenhava aviões, uniformes até que descobri que os astronautas podiam ir muito além. Criei naves com caixinhas de remédio, amarrava meus bonecos em barbantes para lança-los pela "orbita" da minha janela e cantava o fundo musical da odisséia. Até que um dia eu descobri que o tempo todo eu estava voando muito mais alto que qualquer piloto, muito além dos astronautas e que aquele minimo de loucura era a minha máxima vocação.

Era a Arte.

Um dia encontrei loucos como eu. Vários. E me juntei aos "cisnes" para barulhar uma varanda na frente do shopping iguatemi. O som era precário, as músicas eram toscas, mas as gargalhadas que surgiam entre nós eram no mínimo um convite a andar um pouco mais. Eu tinha 15 anos.
Estreamos no palco do extinto "black night" e enquanto as bandas procuravam tirar solos perfeitos de Gun's n' Roses nós nos divertiamos intercalando Reginaldo Rossi com Rage Against the machine. O prazer de estar junto começou a dar cria, e logo vimos que "meu piru é de vidro" não era um refrão que fariam as meninas nos quererem. Começamos a compor, mais maduros. E entre idas e vindas a coisa foi andando e virando um monstrinho. 8 anos se passaram e tivemos que concordar que aquilo era um casamento. A "mulher do padre" virou "patuve!" e dentro do possivel, tambem virou prioridade na vida da gente.
E lá estava eu, exagerado, dando mais prioridade do que eu mesmo era capaz de dar. Estava angustiado e com pressa...não tinha mais tempo de virar piloto, muito menos astronauta, eu precisava voar. Era hora do divorcio.
Conversei com todos e achamos que a melhor coisa a se fazer era terminar a banda, e na verdade penso ate hoje se foi isso mesmo que aconteceu.
Desde o início nosso grande sucesso foram as risadas, a alegria em estar junto e brincar. Acontece que crescemos, e mesmo chorando eu pude ver que aqueles loucos que bateram nas minhas costas e com muito amor disseram "vai lá!", eram meus irmãos.
Ganhei.

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- Faz de novo. rs...

- O que?

- Essa boca pra baixo aí...

- Como? ...assim?

- huauhauhauahuhauauhauahuah.

A boca pra baixo era da figuraça, linda, gostosa e mineira, Mariana Rios. Junto com ela vieram
Monica, Kaisa, Tais, Paty, Rodrigo, Elvecio, Marquinhos, Hudson, Cris, Munique, Diogo, Nando Malabares, Caio, Madá, Camila, Valeska e o Oswaldo.
Eu tava na peça.

As leituras começaram na casa do Oswaldo numa pontualidade britanica. Eu cheguei numa "atrasualidade" ironica. Quer adivinhar?
Isso aí, a chave da towner.

Os intervalos serviam para nos conhecermos melhor. Fumantes na varanda.

- Pois é, lá na globo...

nota mental 4: Que que essa garota tá falando de globo? Como é mesmo o nome dela?


- Desculpa, não prestei atenção...que que você fez na globo?

- Eu fiz aquela novela, América.

- Ahhhh tá.

nota mental 5: Tadinha, deve ter feito ponta e ta tirando essa banca agora...

No carro eu atualizava a Manu com as fofocas dos ensaios.

- Ai a tal de Camila disse que fez América.

- Quem? Camila Rodrigues?

- Acho que é ... ela fez ponta.

- Que ponta o que Emilio, ela era irmã da Sol..tu não lembra?

- Que que é Sol?!

Descobri que precisava ver mais novelas. Descobri tambem que precisava de uns toques para atuar, estava completamente perdido e logo toda a soberba que eu tinha visto na "irmã da Sol" se dissipou. Depois de um papo quase discussão a gente encontrou o ritmo certo e tudo começou a andar.

Logo vieram os planos de viagens, as estórias de bastidores, a falta de tempo e o resultado sobre o novo vocalista do SOM DA RUA.

Era eu.

Eu teria que me transformar em cinco a partir dali, mas o difícil foi escolher qual de mim iria conversar sério com a Manu.

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Uma vez escutei de alguém que era incrivel como um cara que fala tanto consegue se esconder tanto em igual proporção.

Pois é.

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Estreamos a peça no Clara Nunes. E foi lindo. Mas o barato mermo eram os esporros, os ensaios e as cenas hilárias que ninguém esquece.

Oswaldo:
- Nando, quando for tocar a zabumba, toca mais baixo.

- Ok.

ele tocou mais alto.

- Nando..é mais baixo.

aumentou.

- nando, MAIS BAIXO!

Eu olhava pro Nando e mordendo o beiço ele agora sentava o braço na zabumba.

- PORRA NANDO, MAIS BAIXO!

PÁÁÁÁÁÁ.....PÁÁÁÁÁÁÁ.

Oswaldo pulou pra cima do palco e gritou na cara do Nando:
- CARALHO, TU É SURDO?!?! MAIS BAIXO!!! MAIS BAIXO!!!!

Nando secou a testa e respondeu:
- Desculpa, eu entendi MAIS MACHO.

Do Clara Nunes partimos pro municipal de niterói e de lá a dúvida sobre o canecão.

- Emilio...

- Fala Oswaldo...

- Tu sabe que se for rolar o canecão eu vou fazer o seu papel né?

- Tô sabendo - graças a Mariana agora eu sorrizava pra baixo.

- Tu sabe tambem que minha mãe te adorou né?

- Não sabia não.

- Pois é, tava conversando com ela e a Paloma, e as duas acham que você deve fazer o canecão.

- E isso muda alguma coisa?

- Bom, eram as duas coisas que eu queria te contar. A primeira é que se rolar o canecão, você vai fazer o papel.

- Sério?! E a outra?

- Semana que vem a gente começa os ensaios pro canecão.

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O ritmo agora era mais frenético do que eu pensava...eu dividia o tempo entre ensaios da peça e os ensaios com o som da rua. canecão e teatro odisseia. E nos tempos livres eu ria de me acabar quase sempre na lapa.

Não falar da lapa seria um crime. Conheci milhões de pessoas lá e passei bons momentos com vários amigos. Quando não era dançando um samba com a Mariana irmã do tobé, era discutindo a posição macho-feminista com o próprio. No fim das contas estavamos sempre no arco-iris fazendo o balanço da noite, ou curtindo algum programa de penetra que as "fontes secretas" arrumavam para nós.

O papo...obviamente acabava em sacanagem, mas em momentos filosoficos e construtivos que geram boa parte do material do que parada, o assunto mesmo era a guerra dos sexos, ou melhor...a mulher. E pra falar de mulher é preciso respirar.

Ok, vá lavar o rosto.
Pega esse cinzeiro aí pra mim...
Quando eu puder prosseguir me avisem!


Hoje abri meu orkut e lá estava a sorte do dia, coisa que só fui perceber através dos posts do Tobé.
"generosidade e perfeição são seus eternos objetivos".
Brilhante né? não.
Nunca tive tendencia à monge, generosidade é consequencia e não objetivo, e, perfeição ( ?! ) faça-me o favor.

Se a grande solução da vida fosse escutar e seguir o que o orkut ensina, Deus não perderia tempo colocando as verdades da vida num ser de carne e osso lançado no mundo com a grife "mulher".

Nesse ano aprendi muito com as mulheres. Através de beijos, de surpesas, de relações, amizades e até mesmo por relatos do blog "homem é tudo palhaço" que fica aí do lado nos nossos links.

Me apaixonei algumas vezes, em outras torci para o tempo passar rápido, mas no final a grande verdade é que essa mesma grande verdade, é delas.

E todo aquele medo de namorar outra vez desapareceu, afinal, por mais louco que isso possa parecer, eu namorei o ano inteiro sem compromissos.

Cortei o cabelo, fui ao cinema, teatro, comprei roupas, tive problemas, escrevi, compus e tudo que parecia depender apenas de mim, só aconteceu por que alguma mulher estava comigo e disse "sim". Ok, estou divagando muito, mas quem é que entende a mulher? é mais fácil aceitar.

Você já foi deitar e sem querer prestou atenção no seu coração batendo? E passou alguns minutos angustiantes preso aquela batida tentando entender o por que aquele simples som te mantem vivo? No fim das contas a gente liga a TV, aceita o fato e agradece. Isso é a mulher.

-Estou vivendo o momento mágico das mentiras que as mulheres criam para nos fazer feliz.

- Eu entendo isso Emilio, mas falaí, tirando essa poesia barata.

- Tobé, eu liguei pra ela na semana passada e fiquei meia-hora tentando achar uma brecha para convida-la para algum programa maneiro, afinal eu não queria ligar e dizer "opa, e aí, vamos tomar um chopp?".

- E aí?

- Ai que ficamos conversando e ela perguntou se eu tava afim de tomar um chopp essa semana.

- Isso seria quando?

- Ontem, mas ela não pode ir.

- Se fudeu.

- Não po, peralá, a gente remarcou pra hoje.

...

- E aí, como foi o chopp?

- Não rolou.

- Se fudeu.

- Nada, ela tinha trabalho de faculdade e ai ficou pra semana que vem.

- Eu ficaria frustrado.

- Ficaria nada Tobé, você tambem é homem cara. Já notou como a mulher muda toda a verdade com uma simplicidade assustadora?

- Já, e no fim das contas a gente acredita.

- Pois é, é como quando você é criança e o Otavinho da 4º série acaba com sua alegria dizendo que papai noel não existe. Ele te explica através da quimica da fisica e da matematica que é impossivel um velho gordo e muito provavelmente senil, conseguir guardar endereços, presentes e ainda visitar todas as casas do mundo numa única noite.

- E daí?

- Daí, você chega em casa chorando e conta tudo isso pra sua mãe, e ela abaixa, olha no teu olho e diz "calma, ele existe sim.". Você abre um sorrizão e atraves de um "calma , existe sim." que não prova porra nenhuma, voce não só volta a acreditar no Velho, como escreve cartas até os 30 anos.

- É cara...as mulheres são um mistério.

...

- Emilio, você jura que não esta puto por ela ter um passeio cultural na floresta da tijuca com um grupo de crianças cegas de Marrocos exatamente no horário do chopp???

- Tô não cara, ela remarcou nosso chopp pro dia 24 de dezembro.

Resumindo:
Com algumas mulheres aprendi que ser legal pode ser apenas ser legal;
Com outras aprendi que é preciso ter calma;
Algumas me mostraram que o kamasutra é simplesmente um livrinho de posto de saúde;
Com minha irmã aprendi que Mc Leozinho pode ser divertido;
Com minha irmã mais nova aprendi que arrancar um sorriso não é tarefa, é presente;
Com minha avó aprendi que as mulheres veem coisas que nós não vemos;
Com minha mãe continuo aprendendo que o amor é algo incondicional.

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- E aí, alguém já me odeia?

- Cara, pelo visto ainda não, mas vai acontecer.

- Tomara.

A peça rolou no canecão e com isso terminamos a temporada de "aldeia dos ventos". Oswaldo me ensinava que o sucesso só vem depois do ódio de alguém. E eu aguardava anciosamente algum fã do som da rua que cuspiria na minha cara.

O show de volta rolou no odisséia e no fim de tudo eu comecei a enxergar meus novos presentes:
Fabrizio ( que dentre todos, assumiu o posto de fiel escudeiro), João Rodrigo ( O cara que de um jeito odiavelmente amavel verbalizava até mesmo sobre como tirar o papel de um chiclete), Renato ( tão distante, porém naturalmente querido) e Diogão ( se é que isso é possivel, uma espécie de Emilio, só que calado e quieto).

Lembrei de como tudo se desenrolou. Depois de uma viagem para Araras, na casa da Mirela, João quis conversar comigo.

- Cara, depois dessa viagem a gente chegou a algumas conclusões...

- Pode falar.

- Como você é o novo vocalista do som da rua, a gente vai viajar muito juntos.

- Aham.

- E quando viajarmos, talvez todos estejam muito cansados após os shows.

- Ok.

- Então é provavel que você não possa dormir as 10 da manhã como foi lá em araras.

- Sem problemas.

- E algumas pessoas podem não querer ver sua imitação de macaco no meio da madrugada.

- Entendo.

- E a gente pode acabar brigando caso voce bata nas portas dos quartos berrando "quer dormir, dorme no Rio.".

- justo.

- E o teclado do Fabrizio vai estar por perto sempre, porém eu acredito muito que ninguem vai curtir se você ligar aquela coisa no amplificador e começar uma Rave as 5 da manhã.

- Já entendi.

- É bom ter você com a gente.

- Obrigado.

É óbvio que fiquei assustado, mas na primeira oportunidade de viagem, me acalmei depois que o João teve um ataque histérico por causa de uma barata no meio da noite.

O tal "quer dormir, dorme no Rio" era algo comum nas minhas viagens, mas é claro que isso só era aceito na casa de Maricá...

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- Ih rapaz! Esqueci o Ninho dentro do carro!

Ninho era um poodle highlander do João Paulo. Quem berrava era Paulo Campos, pai do João, que as quatro da tarde lembrou que o cachorro imortal estava atras do banco do carro torrado de sol desde onze da manhã.
Torrado estava o carro. Ninho saltou pra fora, impulsionado pela perna boa, e como se nada tivesse acontecido, foi pra perto da churrasqueira atrves do olfato, até porque ele era cego.
Daí ele latiria por um pedaço de carne preparada por Gustavo Malavota, mas isso só aconteceria se Ninho ainda conseguisse latir.

Perdi a conta de quantas vezes fomos para Maricá, quantas fogueiras foram acessas, quantas caixas de cerveja, quantas estórias da época de escola mais do que manjadas e quantas vezes eu tive que tocar "baba baby" imitando o Daniel, Paulo Ricardo, Tiririca e Ed Motta.

Quando digo que vou viajar com a galera do colégio Martins o povo quase não acredita que ainda seja possivel juntar todo mundo tantas vezes no ano. Quase.
Não acreditam mesmo é quando digo que esses encontros não são forçados por algum motivo em especial.

Talvez o que haja de especial seja apenas nós mesmos.

- Como tá o teu irmão?

- Que irmão?

- O Pedro.

- ta bem cara, ele agora ta em São Paulo, trabalhando.

- Me amarro nele...sabe como conheci o Pedro?

- Não, conta aí.

- O Pedro...bom...o Pedro éééé...irmão de um grande amigo meu...

- Rodrigo...

- Que foi?

- O Pedro é meu irmão.

- Ahh é, então...

Aí o Paulo passa pela piscina as 9 da manhã. Eu e Rodrigo ainda estavamos acordados. Rodrigo estava afundando na água e esticando o corpo, eu só observava.

- Falaí Emilio, eu era um objeto, adivinha aí.

- Sei lá muleque, tu só se esticou.

- Era uma régua!!!

- Puta merda...PAULO, CHEGAÍ, ADIVINHA O QUE O RODRIGO TA FAZENDO!!!

Rodrigo se esticou de novo embaixo d'agua e quando voltou, secou o rosto com um sorriso pronto.
Paulo, que nem se mexeu na borda da piscina, respondeu.

- Fácil...uma régua.

Preciso dizer onde vou passar o Reveillon?

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- Emilio, leia isso aqui.

Eram comentários sobre o show da volta do som da rua. Alguém me odiou. Alguéns.

- Agora sim!

Descobri uma nova forma de compor. Ora ajudado pelo Liô, que dizia que o legal era transformar tudo em belas canções, mesmo as coisas mais detestaveis; ora pelos caras do Zecacurydamm, que me mostraram o que eram belas canções.

- Escuta isso.

" La la, lin lin lin , lon lon lon lon..."

Estavamos subindo a serra para um fim de semana na casa do Heribertão, pai do Tobé. Eu estava de carona por dois motivos.

1 - A Towner não aguentaria subir a serra.
2 - Eu precisava tirar a chave de dentro dela.

- O que é isso?

- Zecacurydamm.

- Que porra de nome é esse?

- É o nome da banda, que na verdade são os nomes dos caras: Zeca, Cury e o Damm.

- Rs...maneiro.

No domingo Tobé estava procurando por um objeto pesado e mortal, caso eu voltasse a cantar "la la lin lin lin lon lon lon lon" de novo.

- Os caras estão vindo pro Rio.

- Que foda...quando?

- No aniversário do Daniel. Sabe quem mais vai tocar?

- Quem?

- Patuve!

Foi uma festa no minimo alucinogena. Eu estava com saudade daquela zona. Subimos no palco sem ensaiar e mesmo com minha gaita fora do tom, mesmo com o Fa-fabio cantando, mesmo com o André invadindo o palco pelado para cantar "normal", ainda sim, foi um showzaço regado a guerra de bolo e Rock'n roll.

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Mas era isso, alguem me odiava e eu tinha o novo desafio de transformar isso em uma bela canção.
E assim, o medo da falta de composições para o som da rua, virou uma enxurrada de idéias e novos formatos.
Minha casa virou o QG das idéias, e quase sempre tinha alguém batendo na porta para compor e beber o miraculoso café com cachaça que abria a mente.

E com alguns covers cantados com o meu ingles "impecavel", novas composições, problemas resolvidos e uma penca de shows, começamos a traçar os planos de viagens.

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Um pouco antes disso tudo, surgia na minha cabeça a idéia dos diários "normais" aqui no blog. E se eu continuasse contando aqui essa retrospectiva, estaria repetindo muita coisa. E cá pra nós...se você leu tudo isso até aqui, é sinal de que você é nerd o suficiente para ler o resto do blog.
Eu e Tobé agradecemos.

Por fim, gostaria apenas de falar sobre dois caras que como sempre foram meus pilares durante o ano.
Um é gordinho.
O outro também.
Um é santo por morar apenas com mulheres.
O outro também.
Um é meu irmão.
O outro também.

Tobé foi e é o grande irmão dessa vida.

- sabe o que me irrita.

- fala Tobé.

- Essa tua mania de achar que tudo é normal.

- Normal.

- O que é é normal? As pessoas se fodem, passam por problemas e tudo que voce sabe dizer é que é normal...as vezes "normal" não é a palavra certa pra se dizer pra alguem.

- Normal.

- O que é normal?

- Você pensar isso.

- Muleque, mas isso me irrita.

- Claro, se voce não gosta, naturalmente que voce vai ficar irritado, mas pra mim isso é normal.

- Mas e se a gente cair na porrada um dia por causa disso?

- Normal.

No fim das contas eu continuo achando tudo normal, até mesmo o fato de não saber o que fazer, sem antes falar com esse pessimista querido.

Pedro é o cara. É o meu heroi. Essa coisa gorda que saiu da mesma barriga que eu, que fala rápido pra caralho e tem o dom de me irritar.
Mas ai eu paro pra escrever uma retrospectiva e vejo que o gordinho tava lá, em cada situação acima, ele tava lá. E ai eu me pego vendo o sorriso dele enquanto le o blog e fico rindo sozinho enquanto penso "Le devagar porra..."
Não tem jeito, eu amo esse muleque na mesma intensidade com que ele mistura as palavras.

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E agora sim, 2006. O fim de um ano que virou minha vida de cabeça pra baixo. E parafraseando alguém do orkut:

Que 2007 seja melhor que 2006 e pior que 2008.

Beijos e inté!



OBS: A towner de Emilio Dantas sofreu um derrame e falencia multipla dos orgãos em meados de outubro. Seu pai decretou, enfim, a morte da towner. Pessoas do mundo inteiro, comovidas, prestaram homenagens e fizeram campanhas por sua volta. O pedido foi atendido e no final de Novembro a towner estava de novo pronta para voltar as ruas.
Mas antes Emilio teve que arrumar um jeito de tirar a chave de dentro dela.

21 Dezembro 2006

MOMENTOS NORMAIS - 10 dias em SP.

Ao longo da vida transformamos algumas necessidades em obrigações, tais como, comer quando se tem fome, atender às nossas responsabilidades ou até mesmo respeitar a curiosidade de ver o novo filme da Gretchen. Pois bem, saber que este que vos fala esteve em SP durante 10 dias em turnê com sua banda, SOM DA RUA, não é uma dessas coisas.

O fato é que toda essa jornada renderia mais de mil posts "normais", se houvesse computador no hotel de Ribeirão Preto, no escritório em São Paulo ou nas proximidades da Edícula de São José dos Campos.
E tinha.
Mas ninguém precisa saber disso. Então deixemos as explicações de lado e vamos ao que interessa:

MOMENTOS NORMAIS - 10 dias em Sampa meu! Qual que é?! Cê é loco, mano?!
- Fabrizio.
- Fala.
- Quem esta dormindo no quarto dos fundos?
- Tá só aquele cara...
- O Ronaldo?
- Não cara, aquele maluco...
- O Ronaldo.
- Não...peraí, eu vou lembrar.
- Fabrizio, só existe o Ronaldo, tirando a galera da banda.
- Não é o Ronaldo...é oooo...
- Quem?
- É o sem ser o outro!
- Ahhh... tá explicado.
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Como a viagem era longa, resolvemos o tédio com algumas cartelas do jogo PERFIL.
- Sou uma coisa. Aí vão as pistas:
Sou um instrumento periférico.
Atuo em superfície plana.
Sou de plástico.
Posso ter várias cores.
Abro janelas.
- De quem é a vez?
- Mafra.
- Ok, ahhh é uma Harpa!
- ...
- ...
- Harpa, Mafra?!
- Isso.
- Ok, não é uma harpa...sua vez João.
- Mouse.
- Correto!
- Puta merda...
- Que houve Mafra?
- Eu estava justamente entre harpa e mouse!
**********
Continuando com o Perfil, agora sou uma pessoa.
- Vamos às dicas:
Sou uma cantora pop.
Casei-me com o presidente da SONY.
Comecei cantando em igrejas.
Já cantei com várias Divas.
- Mafra, sua vez.
- Carlos Santana.
**********
Glauber estava nos recebendo em SJC.
- Bom, João, tá tudo certo lá na Edícula...
- Onde?
- Na Edícula.
- Que isso?
- Ue cara, edícula é uma casa de três comodos.
- Ah tá.
- Mas por que? Como vocês chamam isso no Rio?
- Casa de três comodos.
**********
Acordei tarde e como todos já haviam almoçado, só me restou andar até a padaria ( ou padoca como diram os paulistas ). Fabrizio estava no quintal da edícula soltando pipa.
- Que isso cara?
- Po muleque, pipa! Tô mostrando pros paulistas o poder do Méier.
- E como tá isso aí?
- Tá maneiro, tem até uma pipa rolando mais ali na frente, vou cortar!
- Ok, vou na padaria.
Saí de lá com um sol de rachar a moleira. Parei numa papelaria e comprei um baralho que fiquei devendo ao Diogueira. Um real. Consegue imaginar a qualidade do produto? Depois de umas três subidas e uma quase desidratação cheguei na pracinha onde ficava a padaria. Na minha frente uns três neguinhos pulavam de alegria e corriam pela praça levantando algo como um troféu.
Era a pipa do Fabrizio.
**********
O Matheus acompanhou nossos shows de São José dos Campos. Inclusive todos os carregamentos e descarregamentos do Viagrão, nosso somdaruamobille. ( vide fotolog.com/somdarua).
Enquanto descarregavamos a última leva de equipamentos do último show, todos caindo de sono e mortos, o Matheus passa por nós com um pedestal de microfone nas mãos.
Diogão, que segurava um amp. de guitarra, quase riu da situação...
Em seguida passa o Pablo, batera da VOLTZ, com um bumbo tamanho familia, daqueles que caberiam 5 feijoadas da Portela. Olhando para o Matheus, e pingando de suor, ele suspendeu um pouco o bumbo ao passar e mandou:
- Dá até orgulho né mano?
Aí sim o Diogueira riu.
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BONUS "TARANTINIANO"
Renato, João, Emilio, Patricia, Juliana, café e Pinacoteca.
Renato:
- Quer ver um lugar maneiro de se ir aqui em São Paulo?
João:
- Qual?
Renato:
- A...como é?...Pinacoteca...
Emilio:
- O que tem lá?
Juliana:
- Renato, não existe nada de bom na pinacoteca.
Renato:
- Existe sim.
João:
- O que?
Renato:
- Cara, o lugar é maneiro...
Emilio:
- Mas o que tem lá?
Patricia:
- Nada.
João:
-Nada?
Renato:
- A questão é que o lugar é maneiro...
Emilio:
- Cara, a questão é o que existe numa pinacoteca! É disso que estou falando...pinacoteca é coleção de que? Pinos?!
João:
- Pinos?
Renato:
- É Emilio! Pinos! Isso aí, tem pinos.
Juliana:
- Fala sério...
Renato:
- Então, pinos. Pinos de boliche...
Patricia:
- hahahaha
Renato:
- Tem pinos da mongólia, pinos da Escandinávia, pinos do século XVI...
João:
- Muleque, são quadros!
Renato:
- Eu sei que são quadros, eu tô zuando...
Emilio:
- Ahhh...já tava começando a achar interessante.
Renato:
- Ok, mas não são pinos.
Juliana:
- São quadros.
João:
- Já estamos sabendo.
Renato:
- Então gente, peraí, pinos quadros, não importa! O lance é que o lugar é maneiro.
Emilio:
- Po, mas se os quadros não importam, como é que uma pinacoteca pode ser legal.
Patricia:
- Não tem nada de legal...
Renato:
- Cara esquece os quadros, o lugar é uma merda...
João:
- caralho, afinal essa porra é maneira ou não?!
Renato:
- Não...
Emilio:
- Bicho, tu acabou de dizer que legal mesmo era a pinacoteca!!!
Renato:
- Não cara, a pinacoteca é uma merda...o grande lance é dentro dela.
Juliana:
- Os quadros.
Renato:
- Não...é um café que tem lá.
João:
- Um café?!
Renato:
- É cara o café de lá é irado...
Patricia:
- Isso é mesmo...
Emilio:
- Como assim, um café?
Renato:
- Num é café de beber, é café de ambiente sacou? Tipo a lojinha que vende café.
João:
- Ahhh tá...
Renato:
- Sacou agora? A pinacoteca é uma merda, mas o lance mesmo é o café.
Juliana:
- É verdade.
Emilio:
- Mas e o café?
Renato:
- O café é maneiro...
Emilio:
- Tô falando da bebida.
Renato:
- Ahhh....uma merda.

10 Dezembro 2006

DEIXA AS ORELHAS PELO MENOS


Confesso que não sou um adepto de narrativas, entretanto minha ultima aventura ao cortar o cabelo merece ser compartilhada com todos, até como um alerta na hora de tomar decisões aparentemente simples, como escolher o cabeleireiro.

No início do mês de novembro, passei em frente a um espelho de uma dessas lojas de rua e levei um susto com a minha cabeleira. Lembrei da velha piadinha infame: “Barbeiro também tem família pra sustentar”. Nesse momento me dei conta de como as expressões deixam de fazer sentido com o passar do tempo. Hoje em dia não existem mais barbeiros. Só cabeleireiros. Isso se o sujeito for meio viado. Se for muito viado, é “Hair Stylist”.

Eu sempre cortava o cabelo num salão perto do antigo apartamento que eu morava. Cortei o cabelo lá durante 6 anos e nunca soube o nome do maluco. Mas era tranqüilo. Eu chegava, falava: “dá uma aparada.” Ele cortava, eu achava que tava uma merda e depois que eu tomava banho, ficava do jeito que gostava. 10 reais e todo mundo feliz.

Como esse salão fica um pouco longe do lugar que eu moro atualmente e eu estava cansado e com preguiça, decidi arriscar num salão que tinha na minha rua.

ATO 1 – CORRA.

Entrei no salão e por um instante pensei estar numa clinica geriátrica daquelas que maltratam idosos. Haviam cerca de 10 velhinhas sentadas fazendo as unhas, o que me levou a outra dúvida. Será que cortam cabelo aqui?

Fiquei mais ou menos 20 segundos parado na porta avaliando o lugar e foi tempo suficiente para meu instinto de auto-preservação dizer para sair dali. Nesse momento um ser estranho sentado a minha frente, aparentando uns 50 e poucos anos, longos cabelos loiros e pernas cruzadas como uma moça, perguntou o que eu queria com aquele jeito característico de quem não consegue falar “chiclete” sem parecer que está de sacanagem:

- Quanto ta o corte?

- 10 reais. Vamos fazer?

Uma parte de mim estava com medo e querendo fugir dali. Outra parte estava com preguiça, querendo cortar o cabelo e achando que tava no preço. O comodismo triunfou sobre o bom senso e me acomodei em uma cadeira olhando as paredes ao redor e me perguntando como aquele lugar ainda estava de pé com tantas rachaduras.

- Eu quero dar uma aparada em cima. Não precisa tirar muita coisa não.

- Entendi. Você quer uma coisa mais moderna neh? Em camadinhas?

- Não. Eu só quero dar uma aparada.

- Ok. Dar uma aparada em camadinhas né?

Eu deveria ter levantado e saído naquele momento, porém entrou em ação meu lado otimista que faz tempo que eu tento eliminar, e eu pensei: “Dá uma chance pro cara. Tu corta o cabelo com o mesmo viado há anos. Faz algo diferente. Pode ser que você goste”. E assim, com esse pensamento no melhor estilo “Sorte no Orkut”, entreguei a cabeleira nas mãos daquela criatura que me fez lembrar o Sinhozinho Malta de Roque Santeiro pela quantidade de pulseiras no braço. A diferença eram as madeixas louras e suas pulseiras que não eram de ouro, mas de bolinhas plásticas coloridas no estilo 1,99 a braçada...Quantas você pegar você leva.

ATO 2 – ARREPENDA-SE.

O simpático (eufemismo para bicha tagarela) cabeleireiro começou a narrar sua trajetória de vida enquanto eu via o comprimento do meu cabelo diminuir sensivelmente. Enquanto falava, acelerava o ritmo das tesouras me deixando tenso e preocupado com as minhas orelhas...que não são pequenas.

- É a primeira vez que você vem aqui né.

- Aham.

- Pois é. Eu trabalho nesse salão a mais de 15 anos. Já era até pra eu ter me aposentado, mas eu gosto daqui...entende?

-Aham.

-Eu corto cabelo há 30 anos. Todo mundo aqui me conhece. Eu gosto daqui porque a dona do salão é legal comigo e aqui fica perto da minha casa. É bom trabalhar num lugar assim né?

- Aham.

- Eu moro ali na Usina com a minha mãe, aqui eu ganho meu dinheirinho e posso ajudar em casa. Eu tenho muita experiência como cabeleireiro. Comecei com 16 anos a trabalhar com isso. Trabalhei até com o Manolo. Sabe quem é né?

- Sei sim.

- Pois é. Ele gostava muito do meu trabalho. Aprendi muita coisa com ele. Cortei o cabelo de muita gente importante. Mas eu gosto desse salão porque aqui eu trabalho com todo tipo de pessoa. Isso é legal né?

- Aham

-Eu também corto cabelo a domicilio. Hoje mesmo eu fui num prédio aqui da rua cortar o cabelo de uma senhora de 80 anos que só corta o cabelo comigo. Eu corto o cabelo de gente pobre, gente rica. Tenho cliente que é lixeiro e praticamente todos os porteiros aqui da rua cortam o cabelo comigo.

- Legal.

- Você tem um redemoinho grande na cabeça na parte de trás. Quando for pentear o cabelo, você deve colocar ele pra trás. Pra não parecer que é falha. Deixa só eu fazer o pé e a costeleta pra terminar o corte.

Nesse momento eu fiquei com medo. Apesar das “invejáveis” referências do profissional da tesoura, orientar a fazer algo pra disfarçar uma falha que não é falha, só pode ser uma falha. De qualquer maneira, ele pegou uma navalha e começou a “acertar” a costeleta. Tirou a costeleta e metade da minha barba que estava por fazer... Mas só do lado direito.

Quando começou a fazer o pé. Comecei a sentir uma forte ardência na nuca, fiz uma expressão de dor e pedi pra ele ir devagar. Logo em seguida me arrependi e desejei não ter alimentando nenhum tipo de fantasia para uma posterior sessão de “auto-amor” do sujeito. Achei melhor sofrer calado.

Ao terminar qualquer corte, sempre rola aquela limpada no pescoço e na camisa com uma espécie de pincel, escova ou algo do tipo. No meu caso, eu tive um tratamento especial. O sujeito pegou um frasco de talco e despejou na minha nunca. A quantidade foi tão razoável que senti minhas costas ficarem brancas. Em seguida pegou um espelho e exibiu o resultado final.

Meu cabelo parecia um caroço de manga chupada e minha nunca e pescoço de tão brancos em função do talco, me deixaram com um ar de portador de albinismo.

ATO FINAL – SUPERE.

Voltei para casa sem fazer a menor idéia de quem era Manolo, com a esperança de que após o banho meu cabelo ficasse com um aspecto melhor, que meu pescoço parasse de arder o quanto antes e entendendo que a expressão “tem cara de porteiro” não é um preconceito socio-econômico e sim um preconceito sócio-cabelereiristico.

Na segurança do lar, encontrei minha mãe. Uma senhora que sempre fica feliz ao ver meus cabelos cortados porque segundo ela “eu fico com cara de maluco de cabelo grande”. Naquele momento que eu precisava de apoio, o carinho materno foi arrebatador. Ela me olhou, abriu um sorriso e disse: “Que merda que aconteceu com os seu cabelo?”

Decidi raspar a cabeça. Minha irmã ficou relutante em usar a maquina, pois nunca tinha feito isso antes. Dei meu apoio e disse: Pior do que está, não vai ficar. Ela concordou e raspou, dizendo: “Teu pescoço ta todo fudido. Que merda que aconteceu?”