"Merda pouca é bobagem!" - Guarde isso na mente pro final.Por enquanto pense apenas em "Quando a esmola é demais..."Felipe, um grande amigo meu de infância, é um desses hiporongas loucos que andam por aí com um barbão cheio, sandálias e vez ou outra uma garrafinha com bebidas estranhas. Enfim, tudo que um vendedor de uma Redley de búzios não é!
- Tu vai pra onde Felipe?!
- Trabalhar na Redley de Búzios.
- Assim do nada?
- É cara, vou ficar numa república louca lá.
Em um mês ele estava de volta. De sandálias, barbão, garrafinha no bolso, e no máximo, uma camiseta da Redley.
- Como foi lá?
- Legal...legal.
- Alguma estória?
- "A" estória!
Quando a esmola é demais...a gente fica tão feliz com ela que nem desconfia de nada.Felipe Acordou naquele dia, com um sorriso fora do comum. A tal menininha que "parou na dele, bicho" resolveu: Ia dar! Marcaram no cantinho da praia, aquele mais escuro onde todos iam fazer algo que é melhor fazer num cantinho mais escuro.
Seu companheiro de quarto notou o sorrisão, e resolveu lhe dar mais motivos pra sorrir.
- Felipe, olha o que eu arranjei.
O tijolão prensado brilhava. Ou talvez era só o reflexo do brilho dos olhos do Felipe.
- Caaaaaaraaaaaaaaaca...
- Toma metade pra ti.
Pensou em sair na rua e cantar alguma bela canção, em dançar com velhinhas tostadas do sol de búzios, em fazer uma plástica para abrir mais o sorriso...mas Felipe é assim, quando pensa muito, paralisa.
Guardou o tijolinho planejando o cantinho da praia, aquele mais escuro, onde todos fumavam coisas que era melhor fumar num cantinho mais escuro.
A noite chegou, e o bolso pesou. Um pedaço do tijolo, colírio, seda, isqueiro e claro...camisinha.
A menina também se preparou, quer dizer, saiu de saia.
Felipe encontrou a menina e depois de beijinho aqui beijinho acolá, partiram para a empreitada. O cantinho era realmente escuro, e o máximo que deu pra sacar era um banquinho de cimento ideal para o plano.
- Peraí.
- O que foi?
- Assim num dá, minha saia tá agarrando. É melhor você sentar no chão.
" Juca achou uma nota de cinquenta na rua. "que sorte", pensou ele. Meia hora depois foi detido com uma nota de cinquenta falsa na padaria de Seu Getúlio.Isadora arrepiou-se de medo quando viu a corja de velhinhas fofoqueiras se aproximando do elevador. Passaram direto, deixando Isadora subir sozinha. "Ainda bem". Quarenta minutos depois Isadora arrancava os cabelos suados, presa dentro do elevador, recebendo mil conselhos das corocas pela janelinha."As vezes, as pessoas sofrem conseqüências graves por seus atos. Em outras situações, sofrem o que chamamos de azar. De fato, o que aconteceu com Felipe a partir do chão, foi tão absurdo, que o próprio azar duvidou. Qualquer pessoa que estivesse por ali diria "que merda", e se houvesse alguém por ali dizendo "que merda", talvez a merda não acontecesse. De qualquer forma, eles estavam sozinhos, ninguém disse "que merda" e aí...já viu....deu merda!Sentado no chão, Felipe viu a menina erguer um pouco mais a saia e se preparar para sentar bem em cima dele. De cima dele, mais precisamente na testa, gotas de suor brotavam, denunciando uma duvida entre empolgação e nervosismo. A posição em que estava ainda não era a mais confortável. Ele precisava apoiar as mãos no chão. E foi aí, caro leitor, que o tempo parou!
O suor que descia da testa de Felipe, na mesma intensidade em que a menina descia para se sentar, era de nervosismo. Isso porque o suor do nervosismo é mais denso e viscoso, e acontece quando, por exemplo, alguém que esta prestes a se dar bem, procura apoio sentado no chão e acaba afundando a mão em algo mais denso e viscoso do que o suor do nervosismo.
- Emilio, vou te falar bicho! Na hora que eu meti a mão, eu tive certeza! Era merda humana!
Consegue sentir a tensão? Não? Então continuemos...A menina sentou no colo do Felipe, e algo precisava ser feito.
- Mas era merda mesmo Felipe?
- Até aí eu não sabia...
- E tu não conferiu?
- Conferi...foi aí que eu errei.
Na dúvida entre merda, pedaço de Jaca e mousse de chocolate, Felipe pensou rápido. Puxou a menina num abraço com o braço livre e deu a volta, sem que ela visse, com o braço atingido por trás dela. Segurou firme o abraço, trouxe a mão pra perto do nariz e cheirou. Era merda.
Felipe não estava mais preocupado com sua mão. Ele estava cagando para a mão cagada. E isso porque agora ele tinha que pensar num jeito de limpar o pingo de merda que ficou na ponta do seu nariz.
- Tu ficou com merda no nariz!?!
- E eu tenho culpa de ser narigudo?!
E agora? Tá tenso? ok, vambora...Uma mão abraçava a menina que não entendia o porque daquela carinhosa e apertada demonstração de afeto. A outra mão, cagada, não servia pra limpar o nariz, cagado. Só mesmo um milagre.
Nesse momento, um bando de pessoas correram sem rumo do cantinho escuro onde se fumam coisas que é melhor se fumar num cantinho escuro. Era a chance do nosso herói.
- Ihh, polícia...deixa eu dispensar o bagulho la no mar!!!
Felipe levantou rápido e correu mais rápido ainda até o mar. Pela primeira vez na vida estava agradecido em ver a polícia. Lavou a mão, esfregou o nariz, e tudo estava em ordem novamente. O cheiro não saiu da mão por completo, mas era melhor carregar o cheiro do que o produto, obviamente. Livre da tensão, agradeceu ao mar sorrindo e virou-se para voltar aos trabalhos. Desfez o sorriso e caminhou na areia deixando cair, assim como quem não quer nada, o tijolinho de dentro do bolso. A polícia estava falando com a menina.
- Que que houve?
- Eu que te pergunto cidadão, vocês estavam fumando maconha aqui?
- Nós?! Não, não, claro que não.
- Estavam fazendo o que?
- Estavamos conversando só.
"Conversando" é menos embaraçoso que "fudendo"...- Ah é? Deixa eu cheirar tua mão então.
Felipe esticou a mão sem saber o que poderia acontecer, no mínimo curioso.
- Ok!
Nem Charles Dickens, com toda sua descrição poética, seria capaz de letrar a cara que o policial fez. A melhor descrição, talvez, seja mesmo "a cara de alguém que sentiu cheiro de merda bem de pertinho".
- Vocês estavam fumando maconha sim!
- Não estavamos não...é sério.
- Olha rapaz, eu vi você indo até o mar pra jogar fora o bagulho, ou você pensa que a gente é otário?
- Não fui no mar jogar bagulho fora! Não mesmo!
- Ah é? Foi fazer o que então?!
" Jogar fora um bagulho" é menos embaraçoso do que "lavar a mão de merda"...Felipe ficou calado por alguns segundos procurando a melhor saída. Olhou para a cara da menina apavorada, olhou para o mar, seu único cúmplice. Voltou o olhar para o policial enfezado e então, explodiu!
- Quer saber? TAVA FUMANDO MACONHA MERMO! É ISSO AÍ, EU TAVA FUMANDO! PÔ, TODO MUNDO FUMA AQUI, QUAL O PROBLEMA?
O policial, talvez por susto, desfez a cara de mal e resolveu tratar o louco de forma sensata.
- Pô amigo, eu sei disso, mas num faz isso não. Ajuda a gente...
Voltou a ser polícia.
- ...que que tu tem aí no bolso?
Felipe foi passando item por item para a mão do tira. Colírio, seda, isqueiro e claro, a camisinha, que gerou risadinhas marotas para a menina apavorada.
O policial foi embora, a menina "perdeu o clima" e Felipe voltou pra república sem comer ninguém, sem maconha, e com a mão e o nariz cheirando a merda.
- Que merda né cara?
- Pois é, merda pouca é bobagem...