19 Setembro 2009

O CASTELO DE CARTAS

Esta é a estória de Scott Nyggel, um americano de 43 anos que resolveu quebrar o recorde de "maior castelo de cartas de baralho".

Em sua pequena casa, na região metropolitana de Nova Orleans, Scott começou a empreitada. O ano era 2005. E foi assim:
Ele entrou no quarto com uma escada, vedou as janelas, portas e tudo que pudesse dar entrada ao vento. Colocou o cd de Bo Diddley e sua guitarra quadrada pra tocar, abriu uma Guinness, deu o primeiro gole, suspirou e removeu o lacre do primeiro de quatrocentos e doze baralhos Bicycle vermelhos que se transformariam num castelo de dezesseis metros de altura, e formou o primeiro par da base.

Nyggel nunca teve sonhos concretos, desses que as pessoas alcançam ao longo da vida. Dizia que, já que era pra sonhar, que fossem coisas impossíveis, pois o resto era só fazer. Um pensamento bonito até, mas longe de ser a real filosofia de sua vida. Nyggel era assim, conformado com sonhos impossíveis ele nunca tinha uma resposta para a pergunta que muitas vezes ouviu: "O que você se vê fazendo daqui a cinco anos?"

Quando abriu o centésimo baralho, Nyggel parou um pouco pra comemorar. A coisa estava indo bem até ali, e 100 é um número comemorativo. Pensou em abrir outra cerveja, mas para isso teria que abrir a porta, e quem sabe, um vento entraria por ali? Não. Comemorou sozinho com um leve sorriso e uma piscada para o rádio, onde imaginou Bo Diddley sentando, cantando e dizendo "vai nessa, chapa! Demais!". E retomou a obra.

Passou a vida fazendo as coisas que gostava. Tudo pela metade. Tinha objetivos, óbvio. Mas as novas possibilidades enchiam sua cabeça de alegria e mudava o rumo do passo quase que uma vez por mês. Alguns diziam que, no fundo, Scott Nyggel era um homem com medo de voar. Outros apenas curtiam aquela vida vibrante e sonhadora sugando-o aqui e ali. Nyggel ria. Era o que sabia fazer de melhor, e dava de ombros pra tudo.

Depois de 12 horas initerruptas no projeto, Scott desligou o som. Medo que a vibração destruisse seu pequeno sonho que alcançava quatro metros e meio.
A fome deu sinal de vida. Nyggel pensou em parar. Estava suando e cansado. Foi quando viu, em meio a torre, um valete de copas sorrindo sarcasticamente para ele. Não. Não pararia ali. Agora era pra valer e quer saber? Que se foda a fome! Abriu mais um baralho.

Foi sem querer, como todo estalo da vida. Sentado entre putas e fumaça do "House of Blues Bar", Nyggel sacou tudo. Sua vida nunca andou, e caso tenha andado, Nyggel não notou sua mão dizendo "vem comigo". Depois de algumas canecas e muito papo, o barman, Phillip lhe disse:

- Sua vida é como um recreio sem o sinal para voltar pra sala. Na escola, as crianças aprendem a usar suas armas pra viver, no recreio elas treinam os tiros. Um dia, você acaba os estudos e está pronto pra ir para a guerra da vida, e não precisam mais de recreios. Você, meu amigo, ficou no pátio.


No terceiro dia, Scott sentiu a boca seca e tentou adivinhar quantos quilos teria perdido ali. O ar estava gasto, ele respirava com dificuldade e abraçava a fome, a sede e o cansaço como velhos companheiros. De resto era apenas ele e as cartas. Riu ao comparar sua vida àquela torre. Era loucura? Talvez, mas as duas tinham algo em comum, pensou ele, estão subindo! Ali ele soube que não pararia, por nada. A torre completava dez metros.

Naquele dia, Nyggel socou o próprio peito tão forte que seu coração tropeçou.
E começou uma nova contagem de batidas.
"Acorda filho da puta!"
Em casa, se trancou atrás de um objetivo. Trabalhar, casar, ter filhos. Nada lhe conformava. No auge da angústia, lembrou-se de seus sonhos, aqueles impossíveis.
A coisa que mais queria mesmo, era voar. Só assim poderia rir de todos que duvidavam dele.
Precisava escalar uma montanha, matar um tubarão aos socos, encher um rio com cerveja, qualquer absurdo que morresse aos seus pés. Mas já era tarde, não havia montanhas por perto, ele era ruim de briga e não tinha nenhum bar aberto pra comprar cerveja.
Porém, havia urgência. Ligou o rádio e ouviu o locutor contar sobre um novo recorde mundial, uma torre de baralhos de 4, 78 metros, construida por um tal de Bryan Berg.
Era isso.
Mas faria o triplo.
E se trancou com escada e baralhos.



Quando a Torre atingiu os dezesseis metros, Nyggel desceu da escada, parou de frente para o castelo e não moveu um músculo.
Teve vontade de chorar, de dançar, gritar, cantar, beber, gargalhar, explodir, até mesmo de mergulhar por dentro da torre.
Mas Scott não se moveu.
Contemplou os segundos de semelhança entre criador e criatura.
Grandes e frágeis. Os dois se olhavam.
Estava feito.
Scott não abriu a porta, nem as janelas, nada.
Não saiu do quarto nem para telefonar para os auditores que atestariam sua consagração. Nem para pegar a máquina e tirar uma foto. Nem para matar sua sede e fome de sete dias. Nem para dormir a semana que devia ao sono.
Estava morto.
Tonto.
Fora de si.
Mas estava feito.

Naquele 29 de agosto de 2005, minutos após Scott Nyggel se encontrar, uma outra criação, talvez a mando de seu criador, resolveu encontrar-se não só com Scott, mas com toda Nova Orleans.

"O Furacão Katrina foi um grande furacão, uma tempestade tropical que alcançou a categoria 5 da Escala de Furacões de Saffir-Simpson (regredindo a 4 antes de chegar a costa sudeste dos Estados Unidos da América). Os ventos do furacão alcançaram mais de 280 quilômetros por hora, e causaram grandes prejuízos na região litorânea do sul dos Estados Unidos, especialmente em torno da região metropolitana de New Orleans, em 29 de agosto de 2005 onde mais de um milhão de pessoas foram evacuadas. O furacão passou pelo sul da Flórida, causando em torno de dois bilhões de dólares de prejuízo e causando seis mortes diretas. Foi a 11ª tempestade de 2005 a receber nome, sendo o quarto entre os furacões."

O furacão levou o sorriso de Scott Nyggel, junto com o próprio Scott.
Alguns sobreviventes que viram de perto o medonho furacão, contaram a imprensa que em meio ao vento havia um homem voando rodeado de cartas de baralho. E que sua gargalhada era mais alta que qualquer parede se quebrando; qualquer destroço se chocando; qualquer assobio do próprio furacão era pouco perto da risada do homem voador e suas cartas.

2 comentários:

Renata Lobo disse...

Scott Nyggel riu dos que duvidaram dele! MEU HERÓI!

paloma disse...

Dantas, tudo no lugar, vento vem e vento vai...Love u!