Ele trabalhava em uma locadora perto do Cantagalo.
Ela era secretária de um dentista hipnólogo, em Ipanema, quase Leblon.
Ele passava os Domingos vendo filmes recém chegados à loja e na Segunda-feira destilava uma enxurrada de dicas ao primeiro cliente que chegasse. Os filmes eram assistidos à base de amendoim caramelado que ele aprendeu a fazer com a avó, há tempos atrás. A receita era simples e rápida, assim como ele.
Ela sempre dormia o Domingo quase todo. Quase. Lá prás cinco da tarde, dava fim ao rola-pra-cá-rola-pra-lá na cama e ia até a locadora no Grajaú. Domingo a locadora fecha às 15. Ela nunca lembrava. Acabava vendo o Domingo Maior com seus Van Dammes e Charlies Bronsons à deriva. No fundo, ela gostava mesmo era daquilo ali. "Desejo de Matar" (Somente as continuações, o primeiro não atingia a tosquice necessária) e "Soldado Universal". Achava o Steve Segal muito bichona, e o Chuck Norris fazia a sobrancelha. Péssimo. Adorava amendoim caramelado, mas assim como a locadora, Domingo não tinha amendoim na rua...e ela sempre esquecia.
Ele nunca, jamais, em hipótese alguma esqueceu um DVD sequer no aparelho. Regras são regras! Quando lançaram a mídia de disquinho ele passou uns cinco meses tentando rebobinar o DVD, mesmo depois de entender que não era necessário. Precaução. Gostava do Tim Burton, Dany Boyle e Tarantino ( "Não de tudo que ele faz, só de algumas coisas", dizia ele ). Nunca gostou dos filmes de ação, achava uma barbaridade gastar dinheiro com produções enlatadas para suprimento da virilidade da alma masculina. Sempre que seu chefe não estava olhando, tirava os filmes de ação da estante de sugeridos, afinal, o Steve Seagal era uma bichona e o Chuck Norris fazia a sobrancelha...peralá!
Ela malhava, não tinha cachorro ( achava um saco ter que passear com eles ), e adorava futebol. Gostava mesmo era de "mulheres de gostam de futebol", achava que esse ligeiro desvio feminino era muito charmoso e com tempo aderiu às torcedoras incondicionais do Vasco.
Ele tentou malhar quinhentas vezes. na verdade, falando a verdade, foram dezessete tentativas. A mais promissora durou três meses. Tinha cachorro ( achava um saco ter que passear com ele ) e detestava futebol. Porém, achava um charme mulheres fanáticas por seus times e por isso dedicava algumas horas da sua vida pesquisando no Google sobre contratações de craques, gols da rodada e classificações, afinal era só aí que o papo futebolístico interessava. Não tinha time, mas por via das dúvidas era Flamenguista. Todo homem tinha que ser.
Ela andava sempre de vestidinho curto. Morava no Rio, pô. "Mó calor!". No fundo sabia do efeito que a academia e a genética unidas tinha sob suas coxas gostosas e a bunda. Apesar de entortar milhares de pescoços por dia, ela sempre achava que tinha que malhar mais. "A carne que forma a criança, quando a mulher está grávida, vem da bunda. Depois que tem a criança, a mulher perde quase 30% da bunda". Leu isso num site sobre curiosidades cretinas. Adorava cultura inútil numa proporção quase igual ao medo da bunda cair. Não tinha planos para engravidar, mas sempre sonhou em ter filhos. Muitos. Quatro era o mínimo.
Ele se vestia do que estivesse limpo para vestir. No fim das contas, quase sempre era uma camiseta encardida e uma calça jeans velha. As vezes sentia calor e pensava em sair de bermuda. Mas ele usava barba, e achava meio patético um cara de barba usar bermuda. Era o máximo ( e bizarro detalhe ) de preocupação que tinha com sua aparência. De resto, sabia que era um Nerd, e sempre viveu como um. Não era feio, as meninas diziam, mas precisava se cuidar. "As mulheres buscam beleza nos homens para diversão e alimentação do ego. 80% das mulheres esquecem desse quesito quando querem algo mais sério. A beleza é o principal gerador de insegurança nas mulheres". Leu isso num site de cultura inútil, que ele não admitia gostar, mas sabia tudo sobre. "Li isso porque pretendo ter mulher e filhos, muitos filhos. Quatro no mínimo".
Ela chegava quase sempre atrasada no trabalho, por dois motivos: O 435 dava a volta no mundo e ela sempre deixava para colocar música no seu I-Pod de manhã. Na verdade era um mp3 player da Uruguaiana. Achava meio absurdo gastar dinheiro com "marcas" quando se podia achar a mesma invenção mais barato. Adorava aquela invenção. ela gostava de Tecno, House, algumas coisas de Blues e Funk ( não dá pra não dançar). Porém, sempre teve uma queda por Bruno e Marrone, mas tinha vergonha. Antigamente jamais, em hipotese alguma, entraria numa loja de CD's atrás de um disco deles. Nunca! Que vexame. Depois do I-Pod, ela tinha a segurança do lar para baixar toda a discografia da dupla. Sabia as músicas decor e tinha que se segurar para não canta-las em voz alta quando estava na rua. Em casa ela cantava berrando mesmo.
Ele abria a locadora. Era pontualíssimo e seguia a risca as próprias regras. Acordava às 6 da manhã todos os dias por dois motivos: o 435 dava a volta ao mundo e tinha que cuidar do cachorro. Graças a Deus ele tinha um I-Pod. Autêntico. Tinha pavor das imitações da Uruguaiana e aquela maçãzinha mordida lhe dava um certo orgulho. Sem o aparelho suas manhãs não tinham graça. Naqueles 30 gigas de memória estavam seus àlbum preferidos. Dos clássicos Jethro Tull e Pink Floyd à pancadaria do Slayer e Megadeth. Tudo organizado em pastinhas separadas com o nome e a capa de cada disco. Menos uma. Aquela pasta exibia só as letras "MB" porque ninguém na face da terra podia saber da sua paixão por Bruno e Marrone. A desculpa praquilo era ensaiada e ele usava sempre para ele mesmo. " Pô, olha a voz desse Bruno. O cara é rock!". Tinha a discografia completa. às vezes tinha que se segurar na rua para não imitar os acordes de "vai dar namoro" com sua guitarra imaginária. Em casa ele deslizava pelo chão de joelhos.
E todos os dias, lá estavam os dois no ponto do 435.
Cada um com seus fones devidamente conectados ao ouvido e ouvindo " Trânsito Parado". Gostavam da música pela estória. A letra falava de um encontro casual no trânsito, desses que a gente fica sonhando por três dias. "depois é preciso acordar, senão a gente surta" - Diziam os dois.
Não era o caso deles. O encontro deles era diário. o mesmo ponto do 435. O mesmo horário. A mesma música. Lados opostos no banquinho de espera.
Nunca se falaram. Sequer se notaram. Mas Deus tem seus mistérios e um dia a bateria dos dois aparelhos irão acabar ao mesmo tempo. Sincronizadas. E eles acabarão se conhecendo.
"As chances das baterias acabarem ao mesmo tempo é de 0,21% por dia.". Estava escrito num site de cultura inútil. Os dois sabiam.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
5 comentários:
Ameiii essa história, Delicinhaaa!!!
Eitaaaa menino talentoso!
Mesmo que a porcentagem seja mínima, ainda é possível. E qd acontecer...Bruno e Marrone entram em ação de novo ...."Do jeito que vc me olha vai dar namoro".
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Velho, mais um genial!!!
Muito bom... viajei legal!!! =)
Muito Bom...
Postar um comentário