Ele foi direto ao guichê de consultas. Algum livro dentre os 37 títulos que pesquisara tinha que estar em conta. Chegou três segundos antes da menina morena.
- Você tem "suicídios exemplares"?
- Deixa eu dar uma olhada... - Respondeu o atendente com uma cara de quem não se espantava mais com a imensa e questionável variedades de nomes criativos.
- Tem sim. Eu vou buscar pra você.
Nesse meio tempo ele aproveitou para notar a morena parada ao seu lado. Na verdade, do outro lado do computador.
Tinha uma bela panturrilha, usava um vestido azul que cobria as coxas, mas o desenho na linha da cintura garantia uma boa surpresa. Barriguinha, ou era zero, ou estava devidamente escondida, mas nada que pudesse comprometer a qualidade daqueles peitos, nem o colo, muito menos o pescoço e por fim, aquele rosto comum ( porém interessante ) exibindo uma feição estranha. Ou de estranhamento.
A ficha caiu.
Ele era um tarado.
Um cara que acabara de pedir um livro chamado "Suicidios exemplares" e que agora analisava sua vítima de cabo a rabo sem o menor pudor.
Esse não era ele. Ou melhor, até era, mas não intencionalmente. O que importava é que indubitavelmente, era o que ela pensava.
O atendente voltou com o livro, e ele sem saber o que fazer, pediu uma outra consulta para tentar se redimir perante à mulher.
- Vê se tem também o " Extremamente alto e incrivelmente perto".
O atendente o encarou como quem diz " Você já pensou em ler livros normais?!".
- Tem sim, vou dar uma olhada pra você. - Repetiu de forma quase ensaiada, depois de um suspiro baixo porém audível.
Nova saída do cara, novo constrangimento da mulher.
Agora ela o olhava como, além de tarado suicída, um maníaco depressivo.
- Prometo que é o último. - Disse ele nervosamente com um sorriso.
- Tudo bem. - Disse ela.
O atendente voltou.
- Desculpa, mas acabou no estoque, só por encomenda.
- Tudo bem, obrigado. - Ele respondeu se retirando o mais rápido possível. Porém, não tão rápido que pudesse deixar de escutar o título o qual a menina procurava. "Velocidade". Um de seus livros favoritos. Fez aquela cara de "lembrei de algo" e voltou triunfante...
- A senhora sabe o nome do autor?
- Dean Koontz - Respondeu o Tarado psicopáta suícida. - D-E-A-N-K-O-O-N-T-Z.
- É...é esse mesmo. - Disse a menina com um certo brilho nos olhos.
- Lamento, mas também só por encomenda. - Respondeu o atendente no meio dos dois.
O Tarado não parou por ai:
- Na Conde de Bonfim, Livraria Eldorado, segunda Loja, Sub-solo, Sebo. Lá você vai encontra-lo por 20 reais, no máximo.
- Obrigada. - Respondeu ela, vacilante.
- De nada. - Disse ele com um sorriso. - Agora procure aí pra mim o "Veredicto de chumbo" do Michael Connelly.
Ela se foi sem tirar os olhos do rapaz, e ele ficou ali apenas curtindo o momento quase cinematográfico que acabara de criar.
E a vida seguiu.
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1 comentários:
Nababo, tu escreve de maneira loquaz e arguto; devaneei com a leitura.
Esse post em particular é um facto real ou fruto de sua criatividade rutilante?
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